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Páginas soltas...

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10
Out21

The October Break 2021 | dias 1 a 10

gaivotazul

Quanto tempo passou? Não sei dizer... Talvez só tenham passado cinco minutos desde a última vez que olhei para o relógio, mas pode igualmente ter passado duas horas ou mais.

Continuo aqui, no mesmo corredor em que me deixaste. De olhos pregados na janela, dela nada enxergo a não ser as memórias que me assolam e as dúvidas que teimam em não me abandonar.

É outubro! De dia para dia sinto o dia encurtar. Talvez uma analogia com a linha da vida que se há-de findar. A noite que lá fora se instala trouxe consigo um vento norte que me gela.

Nas mãos seguro a camisola de malha azul turquesa que me ofereceste. Dizias que fazia sobressair o negro dos meus cabelos. Se me visses hoje talvez não me reconhecesses... Seja como for, não me arrisco a vesti-la. Receio que se mexer um músculo que seja, se desviar o olhar da janela por uma fração de segundos, não te veja regressar. 
Quando partiste, levaste contigo a chave do meu coração que não voltou a bater com a mesma intensidade. Partiste! Não moras mais neste lugar onde eu vivo. Ou sobrevivo.... Todos os dias espero ver-te regressar por essa estrada de terra batida. Por vezes parece-me ouvir o som da campainha da tua bicicleta. Vejo-te pedalar com toda a energia e de sorriso rasgado. Atiras a bicicleta ao chão e corres na minha direção erguendo-me no ar.

Pura ilusão, bem sei! Partidas da minha cabeça a quem nunca faltou a imaginação alimentada por dezenas, se não centenas, de romances. 
Também tu gostavas de romance. Dizias que o melhor de todos ainda não havia sido escrito. Que o viveríamos nós para depois o contar. O Conde de Monte Cristo figurava nas nossas preferências. Era mesmo o teu favorito... Quando apartados contávamos os dias para nos reencontrarmos e renascermos num interminável abraço. 
Continuo de olhos postos na janela mas dela nada enxergo. Digo que o problema é do vidro baço e riscado e numa fúria repentina tento desesperadamente devolver-lhe a transparência... Tola! A culpa não é do vidro. São os meus olhos que nada enxergam. O sal das lágrimas que deles se desprendem é que nada mais deixam ver...

Sinto-me exausta! Reler as tuas palavras traz-me sempre um misto de alegria e dor. Com todo o cuidado volto a dobrar a folha daquela que foi uma das tuas últimas cartas. Falavas-me da espera por dias melhores, da esperança que a pouco e pouco te abandonava, da minha ausência...

Coloco-a junto das outras e devagar baixo a tampa da caixa de madeira, guardiã das nossas memórias. Ao fazê-lo, um breve odor a alfazema desprende-se das folhas e envolve-me. És tu quem me aconchega! Sabes?, tinhas razão! Vivemos o nosso romance. São as nossas cartas quem o atestam. O nosso testemunho que perdurará no tempo e para além do tempo...  

 

Texto no âmbito do desafio The october break 2021 

07
Mai21

Quem conta um conto acrescenta um ponto...

os desafios da Abelha

gaivotazul

(Dando continuidade ao desafio aqui lançado, e ao convite dirigido pela Maria...)

 

Já vos disse. Por baixo desta carcaça velha, sou um coração mole. Mas odeio as pessoas. A bem da verdade, só cá p’rá gente que ninguém nos ouve, odiar e amar são duas faces da mesma moeda. Já o dizia a minha mãezinha. Que Deus a guarde.

Acho que no fundo no fundo, odeio aquilo em que me tornei. Esta solidão que me consome.

No final das contas, o que tenho eu de meu? Nada! Só este atarracado e velho estaminé como eu.

O último ano foi duro, muito duro. Esta pandemia privou-me de tudo. Até das pessoas com quem diariamente refilo e que “odeio”.

É esse o meu papel na sociedade. Sou o velho rezingão que ladra ladra mas não morde. Que refila com o choro das criancinhas por não suportar ouvi-las chorar e que, como tal, tem sempre um chupa-chupa pronto p'ra lhes dar. Que resmunga com o jornal de mão em mão mas que todos os dias faz questão de comprar. Que entredentes contesta cada copo de água solicitado mas que mantém na prateleira por cima da pia cuidadosamente alinhados e prontos a servir.

Odeio pessoas, porque odeio delas depender e sentir a dor da sua ausência.

Para que este desafio possa ter continuidade, convido a MJP a escrever em Liberdade.

27
Abr21

A tatuagem e o cão!

gaivotazul

- Oh meu Deus! O que fiz eu?!

- Oh meu Deus! Não me lembro de nada...

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Francisca olhava-se ao espelho, incrédula! Na noite anterior saíra com as amigas para celebrar a amizade que as unia. Acreditava que passar da condição de solteira para casada, o que aconteceria daí a dois dias, não teria qualquer impacto sobre a mesma. Conheciam-se desde a adolescência e juntas haviam vivido inúmeras aventuras e desventuras pelo que a mesma jamais seria beliscada por uma simples alteração no cartão do cidadão.

Lembrava-se de dançar como se ninguém a visse, de rir muito e de beber um pouco. Afinal de contas era dia de festa e o calor da pista de dança convidada a uma ou outra bebida refrescante.

Não se recordava do caminho para casa. Tinha a vaga ideia de um desafio irrecusável e de umas luzes de néon vermelhas a piscar. Algo aberto 24 horas por dia e de aspeto duvidoso mas que por alguma razão parecia extremamente convidativo.

Enquanto observava no espelho a pele vermelha e dorida do seu ventre, tela outrora imaculada onde agora se lia "Amo-te Xico", toca o telemóvel. Era o João, o seu namorado e agora noivo... O que iria ele pensar? Como lhe iria explicar?!

Rejeitou a chamada, pegou na mala e na chave do carro e enquanto saía disparada de casa atirou para trás um "- Mãe, vou sair para comprar um cão!"

 

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A Ana lançou novo desafio. Uma imagem que primeiro se estranha e depois se entranha. Um olhar que nos prende e nos pôe a imaginar as mil e uma situações que poderiam ter suscitado o mesmo.

Já tinha escrito um texto em resposta ao mesmo, mas sentia que este desafio pedia um pouco mais de humor. 

Espero que se divirtam a lê-lo, tanto quanto eu me diverti a escrevê-lo.

26
Abr21

Nem mais um “até já”...

gaivotazul

Era difícil acreditar no quadro que na sua frente se desenrolava.

Um misto de emoções tomava conta de si. Raiva, tristeza, incredulidade...Acima de tudo incredulidade.

Como pudera ser tão cega, tão burra. Como pudera ter voltado a confiar quando jurara jamais voltar a fazê-lo.

Dissera-lhe certa vez um professor da faculdade que "engravidamos pelos ouvidos".

Compreendia agora, o que ele quisera dizer então.

Qual marinheiro ou barco à deriva, por um canto de sereia, farol num nevoeiro, deixara-se guiar. Acreditara na veracidade das suas palavras. Deixara-se por elas levar. Deixara crescer dentro de si um incomensurável amor. 

E agora, ao cair do pano, restava-lhe apenas tapar a boca para que nem mais um som dela saísse. Nenhum soluço, nenhum grito, e principalmente, nem mais um "até já".

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               ----------//----------

Texto escrito no âmbito dos desafios da abelha.

https://anadedeus.blogs.sapo.pt/tag/os+desafios+da+abelha

 

 

 

 

05
Abr21

Tinha esperança no seu olhar, mas...

gaivotazul

Setembro ficara para trás e Outubro trazia nas asas do vento as tardes frescas. Seria bom ter-se lembrado de trazer algum agasalho. Na falta deste, encontrava conforto na lembrança daquele abraço que findara com um “até já!”. Uma promessa!

Sentara-se na amurada de uma marginal deserta, o sol que mergulhava na linha do horizonte tingia o azul das águas de laranja. Em breve surgiriam no céu as estrelas de que tantas vezes lhe falara, e de que dizia serem feitos.

O seu olhar fixara-se na suave rebentação das ondas que acariciavam o areal. Perdida nas memórias que não se desvaneciam a cada Lua Nova, recordava todas as juras trocadas.

Lembrava-se do exato momento em que lhe segredara que uma mulher de cabelo apanhado era uma mulher comprometida, enquanto lhe segurava entre o indicador e o polegar a madeixa de cabelo que lhe caíra sobre o rosto e a prendia por trás da orelha. Era assim que agora o mantinha, apanhado! Mesmo que alguns teimassem em se rebelar.

Ainda mantinha a esperança no seu olhar. Mas o sorriso que tantas vezes lhe iluminara o rosto havia-se dissipado com a maré…aa.jpeg

 

 

 

 

 

 

 

Texto inspirado no desafio lançado pela Ana que nos inspira a desenhar com palavras.

o desafio de desenhar com palavras.. - © os desafios da abelha (sapo.pt)

 

 

02
Abr21

Vamos juntos por aí. Um dia!

gaivotazul

Um dia largamos tudo, não olhamos para trás.

Quando Nada nos bastar, sobramos nós.

Um dia, caio no abraço tão aguardado.

O lugar, a tua falta, o vazio por ocupar…

As vidas passam, não as agarramos.

Olho o azul à nossa volta qual fio condutor.

Abrir as asas, dar o salto, voar com rumo.

Ouvir o som do mar, o pulsar do coração.

As páginas viradas, por outros contadas.

A tua mão na minha, o único caminho.

Como duas crianças na rua a brincar

Só o Sol ou a Lua por companhia

Vamos juntos por aí. Um dia!

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Quando uma abelha nos convida a fazer parte de algo maior do que nós, seguimo-la de flor em flor (leia-se de desafio em desafio). Não sabemos ao que vamos mas confiamos, e as descobertas têm sido, no mínimo, surpreendentes.

os desafios da Abelha: desafio tramadinho - © os desafios da abelha (sapo.pt)

19
Mar21

Era uma vez uma mulher que quando acordou do coma só miava

gaivotazul

Era uma vez uma mulher que quando acordou do coma só miava...

Chegara numa manhã em que a tranquilidade fora repentinamente sacudida. As notícias chegavam dispersas e com grande imprecisão.  Para o quem, como, porquê... ninguém parecia deter as respostas.

Os pacientes iam entrando em catadupa, uns pelos próprios pés, outros transportados em braços e macas improvisadas. O caos instalara-se e todos pareciam impotentes perante os olhares perdidos e confusos dos que ali chegavam.

Fora a última a chegar. As buscas já haviam sido canceladas pelo que encontrá-la debaixo dos escombros no último instante havia sido por si só um milagre.

Fora um pequeno gato cinzento quem dera o alarme. Miava incessantemente recusando-se a abandonar o local.

Os exames neurológicos e a tomografia nada revelavam. Tirando as escoriações e os hematomas no rosto, nada indicaria que tinha estado no local daquele trágico evento. Para todos, era como se simplesmente dormisse, tranquila e serenamente. 

Haviam-se passado meses desde que despertara. Desde então, deambulava pelos jardins do claustro do antigo mosteiro, hoje convertido em hospital, apreciando as verdes árvores em flor e acariaciando as delicadas pétalas que despontavam.

Nos primeiros dias só miava. Os exames, mais uma vez, nada revelavam. A explicação para tão insólita condição permanecia uma incógnita.  Aos poucos, remetera-se ao silêncio e desistira de tentar que a compreendessem. Mas no seu silêncio aparente, encarnava o papel de toda uma vida e cantava. Afinal, representar Grizabella, havia sido sempre o seu sonho. E "cantá-la", era tudo o que sabia fazer...

" Daylight, I must wait for the sunrise
I must think of a new life
And I mustn't give in"

Cat Soul de Laura Agusti

 

A "nossa" Ana desafiou-nos, e em boa hora o fez. Obrigada, Ana! 

 

 

 

 

03
Mar21

Está ainda para chegar!

gaivotazul

Está ainda para chegar!

É com esta convicção,

sem espaço para grande reflexão,

que neste desafio vou mergulhar.

 

São palavras atrás de palavras,

memórias superficialmente revisitadas. 

Ideias fragmentadas...

 

Presunçoso seria indicar o ano em que nasci.

Em jeito de homenagem, talvez, o ano em que te conheci.

Há ainda aquele ano em que à aventura parti,

e o outro em que o sabor da amargura conheci.

 

Uns anos mais tarde a maioridade

e pouco depois, a mudança de cidade.

O inicio do namoro, o casamento, a maternidade,

e tantas outras datas cheias de personalidade.

 

Se fosse aqui refletir sobre a razão do meu existir,

O tanto que conquistei, o que ficou por dizer...

Melhor será pensar no tanto que vou fazer,

No tanto que vou viver.

 

O melhor ano da minha vida vou afirmar,

Está ainda para chegar! 

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