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Páginas soltas...

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01
Nov21

The October Break | dias 11 a 20

gaivotazul

Ontem demorei-me na saudade e adormeci na lembrança do teu abraço. Hoje acordei revigorada pelas promessas que jurei cumprir. 

A luz da manhã irrompeu pelo quarto e com ela um desejo. Um desejo que nos últimos tempo estava adormecido mas que esta manhã parecer ter ressurgido com novo fulgor. A culpa é tua, devo acrescentar. Foste tu quem me fez prometer e foste tu quem em sonhos mo relembrou. 

Levantei-me confiante, diria até que feliz! Vesti as calças de ganga já desbotadas e a velha camisola de lã cru a quem o borboto apenas acrescenta carácter, calcei as botas de borracha e desci até ao jardim. Pode ser impressão minha mas diria que o odor que se desprende das rosas é esta manhã mais inebriante. Sei que te sentirias orgulhoso dos nossos canteiros. Tinhas razão em teimar na disposição aleatória de sementes. A vida é cheia de surpresas. Nada é exatamente como se espera ou projeta. E ainda assim, no meio do caos, por vezes tudo faz sentido.

Com cuidado, cortei algumas das nossas flores e com elas compus um bouquet que embrulhei num pouco de papel pardo castanho, atado com uma fita de ráfia.

Regressei a casa, passei a escova pelo cabelo, que prendi num rabo de cavalo desalinhado (como eu), e troquei as botas por uns ténis. Ao pegar nas chaves de casa, olhei-te no retrato emoldurado e senti o teu sorriso aprovador. Já adiara por demasiado tempo este encontro...

Foi bom ter estado com a tua mãe. Estranho mas reconfortante. Derramámos algumas lágrimas mas os sorrisos suplantaram-nas e houve até um momento em que  a nossa gargalhada ecoou por todo o salão. Estou certa de que a ouviste, já que foste tu o visado. Falávamos de como te demoravas ao ler a ementa e quando chegava a hora de efetuar o pedido dizias "eu desejo comer (...) mas vou antes pedir (...)" Não sei porquê nunca pedias o que efetivamente desejavas muito embora tu replicasses que era porque "enquanto tivermos desejos (sonhos) teremos sempre uma razão para um novo amanhã". 
Depois do almoço deambulamos sem rumo certo pelas ruas da vila. Uma montra em particular captou a nossa atenção. Toda ela espelhava a dedicação do seu proprietário que durante anos colecionara artigos vintage.  Entrar na sua loja foi como fazer uma viagem no tempo. Não resisti a trazer um LP de vinil, parte de uma coletânea que iniciámos ainda em adolescentes. "O cão e a raposa" da Walt Disney. Uma das nossas histórias de eleição porque nunca nos deixou esquecer a importância de cuidarmos da nossa criança interior e de preservarmos a nossa ingenuidade (leia-se crença na humanidade) e integridade.

Despedi-me da tua mãe com um "até breve" e regressei a casa, para junto de ti. Queria ouvir o álbum na tua companhia... Preparei um chá de laranja. O meu aroma preferido de outono a impregnar o ar.

Sentei-me no chão, junto ao gira-discos, e deixei que as faixas do álbum, umas a seguir às outras, qual tesouras acabadas de amolar, cortassem qualquer ligação ao presente e parassem as horas do tempo. Junto a mim, a tua camisa. Ainda consigo sentir nas suas fibras o odor amadeirado característico do teu perfume...

A história terminou mas o gira-discos continua a rodar recordando-me que a Vida também prossegue para lá destas paredes, e dentro delas. Penso em ti e sorrio. De nós, e em nós, não sobrou nem um remorso. Brigávamos como cão e gato, dizíamos tudo o que pensávamos e sentíamos, para no fim rebolarmos e envolvermos-nos como a rebentação da onda na areia num abraço apertado.

Um abraço que ora gritava ora sussurrava um só sentimento. Amor!

E assim iniciávamos um novo jogo tão nosso. "Eu amo... beber chocolate quente; o cheiro do mar que se cola à pele; (...); a nossa família; a Ti!"

 

Texto no âmbito do desafio The october break 2021

palavras: um desejo; rosas; eu desejo comer; vintage; raposa; aroma favorito; tesouras; um remorso; amadeirado; eu amo

10
Out21

The October Break 2021 | dias 1 a 10

gaivotazul

Quanto tempo passou? Não sei dizer... Talvez só tenham passado cinco minutos desde a última vez que olhei para o relógio, mas pode igualmente ter passado duas horas ou mais.

Continuo aqui, no mesmo corredor em que me deixaste. De olhos pregados na janela, dela nada enxergo a não ser as memórias que me assolam e as dúvidas que teimam em não me abandonar.

É outubro! De dia para dia sinto o dia encurtar. Talvez uma analogia com a linha da vida que se há-de findar. A noite que lá fora se instala trouxe consigo um vento norte que me gela.

Nas mãos seguro a camisola de malha azul turquesa que me ofereceste. Dizias que fazia sobressair o negro dos meus cabelos. Se me visses hoje talvez não me reconhecesses... Seja como for, não me arrisco a vesti-la. Receio que se mexer um músculo que seja, se desviar o olhar da janela por uma fração de segundos, não te veja regressar. 
Quando partiste, levaste contigo a chave do meu coração que não voltou a bater com a mesma intensidade. Partiste! Não moras mais neste lugar onde eu vivo. Ou sobrevivo.... Todos os dias espero ver-te regressar por essa estrada de terra batida. Por vezes parece-me ouvir o som da campainha da tua bicicleta. Vejo-te pedalar com toda a energia e de sorriso rasgado. Atiras a bicicleta ao chão e corres na minha direção erguendo-me no ar.

Pura ilusão, bem sei! Partidas da minha cabeça a quem nunca faltou a imaginação alimentada por dezenas, se não centenas, de romances. 
Também tu gostavas de romance. Dizias que o melhor de todos ainda não havia sido escrito. Que o viveríamos nós para depois o contar. O Conde de Monte Cristo figurava nas nossas preferências. Era mesmo o teu favorito... Quando apartados contávamos os dias para nos reencontrarmos e renascermos num interminável abraço. 
Continuo de olhos postos na janela mas dela nada enxergo. Digo que o problema é do vidro baço e riscado e numa fúria repentina tento desesperadamente devolver-lhe a transparência... Tola! A culpa não é do vidro. São os meus olhos que nada enxergam. O sal das lágrimas que deles se desprendem é que nada mais deixam ver...

Sinto-me exausta! Reler as tuas palavras traz-me sempre um misto de alegria e dor. Com todo o cuidado volto a dobrar a folha daquela que foi uma das tuas últimas cartas. Falavas-me da espera por dias melhores, da esperança que a pouco e pouco te abandonava, da minha ausência...

Coloco-a junto das outras e devagar baixo a tampa da caixa de madeira, guardiã das nossas memórias. Ao fazê-lo, um breve odor a alfazema desprende-se das folhas e envolve-me. És tu quem me aconchega! Sabes?, tinhas razão! Vivemos o nosso romance. São as nossas cartas quem o atestam. O nosso testemunho que perdurará no tempo e para além do tempo...  

 

Texto no âmbito do desafio The october break 2021 

27
Abr21

A tatuagem e o cão!

gaivotazul

- Oh meu Deus! O que fiz eu?!

- Oh meu Deus! Não me lembro de nada...

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Francisca olhava-se ao espelho, incrédula! Na noite anterior saíra com as amigas para celebrar a amizade que as unia. Acreditava que passar da condição de solteira para casada, o que aconteceria daí a dois dias, não teria qualquer impacto sobre a mesma. Conheciam-se desde a adolescência e juntas haviam vivido inúmeras aventuras e desventuras pelo que a mesma jamais seria beliscada por uma simples alteração no cartão do cidadão.

Lembrava-se de dançar como se ninguém a visse, de rir muito e de beber um pouco. Afinal de contas era dia de festa e o calor da pista de dança convidada a uma ou outra bebida refrescante.

Não se recordava do caminho para casa. Tinha a vaga ideia de um desafio irrecusável e de umas luzes de néon vermelhas a piscar. Algo aberto 24 horas por dia e de aspeto duvidoso mas que por alguma razão parecia extremamente convidativo.

Enquanto observava no espelho a pele vermelha e dorida do seu ventre, tela outrora imaculada onde agora se lia "Amo-te Xico", toca o telemóvel. Era o João, o seu namorado e agora noivo... O que iria ele pensar? Como lhe iria explicar?!

Rejeitou a chamada, pegou na mala e na chave do carro e enquanto saía disparada de casa atirou para trás um "- Mãe, vou sair para comprar um cão!"

 

-------------------//-----------------

A Ana lançou novo desafio. Uma imagem que primeiro se estranha e depois se entranha. Um olhar que nos prende e nos pôe a imaginar as mil e uma situações que poderiam ter suscitado o mesmo.

Já tinha escrito um texto em resposta ao mesmo, mas sentia que este desafio pedia um pouco mais de humor. 

Espero que se divirtam a lê-lo, tanto quanto eu me diverti a escrevê-lo.

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