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Páginas soltas...

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26
Out17

Sr. José "Sapateiro"

gaivotazul

 

O dia mal amanheceu. Pelas ruas quase desertas, onde um ar frio se respira contrastando com o bafo quente que emanamos enquanto expiramos, apenas alguns transeuntes. Uns para quem o dia estás prestes a terminar e que se encaminham para a cama, outros para quem o dia vai começar e que dela se levantaram faz pouco. 

Com uma voz mais ou menos efusiva, vão-se trocando "bons-dias" entre olhares apressados porque o tempo urge.

A maioria dos habitantes ainda dorme, mas para uma minoria não há tempo a perder. Abrem-se portas, sobem-se estores, içam-se gradeamentos. Tudo tem que estar pronto.

Na leitaria a Sra. Maria separa os pacotes de leite do dia para os clientes habituais; na padaria o Sr. João retira a última fornada do forno a lenha; na mercearia coloca-se a charcutaria a jeito; e no quiosque o Sr. Manuel expõe os jornais  e os diários com as manchetes do dia. 

Devido à força do hábito, e porque a cama já não lhe traz conforto, também o Sr. José se encaminha no seu passo lento, para as quatro paredes que toda a vida o acolheram.

Não tem janelas. Também delas não precisa. Apenas uma porta velha de madeira pintada de azul.

Por ela pára quem passa, por ela entra quem de tempo dispõe para conversar. 

A clientela já não abunda, mas tempos houve em que conhecia quase todos os habitantes da sua (já não tão) pequena vila. Sabia os seus nomes, os nomes dos seus pais e dos pais dos seus pais. Conhecia os seus hábitos e as suas necessidades.  Colecionava histórias de famílias em solas de sapatos.

Nada que enfraqueça o seu ânimo.

Entre as suas quatro paredes, rodeado de graxas, escovas e solas de couro, no meio dos seus utensílios de um ofício de toda uma vida, onde tornos, martelos, alicates e pregos coexistem, é feliz. Coloca a sua bata azul que com orgulho  enverga e ocupa os seus dias com os poucos afazeres que ainda lhe encomendam. Remenda, aperta, encapa, não alarga mais porque simplesmente já não dá. Com mestria prolonga a vida do calçado dos seus ainda fiéis clientes, zelando para que a estes não lhes falte o chão nem o pão. 

E porque no seu pequeno canto cabe toda uma vila, para todos exibe um sorriso, para todos dispõe sempre de uma palavra de conforto. 

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