Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Páginas soltas...

Páginas soltas...

10
Out20

O lápis era a sua voz!

Desafio I Passa-Palavra #Lápis

gaivotazul

Nunca ninguém lhe ouvira uma só palavra.

Durante muitos anos os pais procuraram "uma cura" que nunca chegou.

Eventualmente, acabaram por ceder às evidências e aceitar. O filho nunca viria a falar...

Foi crescendo de olhos postos no mundo. Absorvendo cada som, cada cheiro ou movimento.

Passava horas deitado na relva, ao sol, de olhos postos nas nuvens que lhe falavam de outros lugares que um dia seguramente iria visitar.

Foi no seu sexto aniversário que recebeu pelas mãos do seu avô um presente que mudaria a sua vida.

Embrulhado em papel pardo, atado com corda de sisal, um velho quadro de ardósia com uma espécie de lápis com um magnifico entalhe na extremidade superior - um lápis de ardósia!

Nunca vira um objeto semelhante. O avô segredou-lhe que aquele lápis era mágico. Que através dele poderia comunicar as suas emoções, os seus pensamentos, as suas convições e  as suas ambições.

Desse dia em diante, dentro de uma velha pasta a tiracolo, do tempo em que o avô fora à tropa, para onde quer que fosse levava consigo o quadro e o lápis.

Nele retratava o dia que nascia e se findava em lados opostos da sua casa, os animais que no seu campo de visão perfilavam - da formiga que lutava por romper à superfície, à àguia real que cruzava os céus, os seus pais e o seu avô.

Se estava feliz, era leve e fluído o seu traçado. Quando a zanga imperava, traços pesados e confusos num emaranhado de linhas preenchiam todo o espaço disponível. Felizmente eram mais os dias de sol que de tempestade pois nunca fora de se deixar abater.

Foi crescendo e chegou o dia de do seu avô se despedir. Foi dele o último retrato que na ardósia guardou.

Era hoje um jovem adulto à conquista do Mundo. Do mundo que ainda criança, sabia que haveria de conhecer e conquistar.

O quadro dera lugar a blocos de folhas de papel e na sua mão, bolso ou estojo havia sempre lápis de carvão. Perdera a conta a quantas paisagens imortalizara, a quantas cidades registara. Captava também a imagem da mãe que segurava no colo o filho, ou o casal de idosos que de mão dada passeava. Por vezes fazia retratos a pedido, mas fazia-o principalmente porque era essa a sua forma de comunicar. Sabia ler como ninguém quem nos olhos o olhava, e escutava até o segredo de alma mais bem guardado. Esses, obviamente, a ninguém os contava.

Encontrara a sua voz ainda menino. Fora o seu avô quem lha dera. O lápis era a sua voz!

 

OIP.jpg

 

 

----------------//-----------------

Texto escrito no âmbito do desafio lançado pela Mula e pela Mel - Desafio Passa - palavra.

 

 

Mais sobre mim

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D