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Páginas soltas...

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09
Jan18

Fascinas-me...

gaivotazul

Fascinas-me...

Sempre que transponho os degraus e passo a barreira do exterior, delimitada pela tua pesada porta que se abre de par em par, sinto que entro num espaço privilegiado carregado de história e que nos sussurra estórias passadas, reais ou imaginadas, encenadas e no teu palco representadas.

O som pesado do silêncio é interrompido pelo burburinho de excitação dos que te visitam. Em ti cabem todas as emoções. A lágrima, o riso, a raiva, a esperança e o desespero. Todas elas aplaudidas de pé numa última ovação com o foco de luz a incidir nas tuas tábuas negras.

Partes de ti transfiguram-se, adaptam-se ajustam-se a cada nova encenação. Outras, outras permanecem imutáveis ao longo dos anos, décadas, quase um século.

Olho as tuas cadeiras forradas a verde. As tábuas corridas que cobrem o teu chão, os degraus de pedra que nos levam ao primeiro balcão e ao último anel. Aí, quase podemos tocar o céu pintado com frescos antigos mas tão vividos. E lá em baixo, o teu palco negro ligeiramente descendente escondendo os camarins onde a transformação se inicia. As tuas cornijas esculpidas, as tuas pesadas cortinas, as grossas cordas em roldanas que as sustêm. 

Diria que já estive em cada recanto dos teus espaços, e ainda assim, sinto que de todas as vezes que nele entro algo mais há a descobrir. Que algo mais queres contar.

Já pisei o teu negro palco, já incidi nele o foco de luz e já fui quem sabe o foco em cima dele ao cantar e representar.

A assistência presente poderia pensar que para eles  atuava. Tu e eu sabemos melhor. Sabemos que apenas o foco de luz que em nós incidia testemunhava que nada mais existia para além de Tu e Eu.

Talvez por isso me fascines... 

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