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04
Jun21

Desafio de escrita 3.0 - tema 3

O Colecionador de "Porquês"

gaivotazul

O passado fascinava-o. Perceber o porquê das coisas era quase tão essencial para si como respirar. Se não compreendia algo, sufocava no peito uma dor crescente que nele se sentava qual elefante. Crescera a ouvir dizer que “A vida só pode ser entendida quando se olha para o passado, mas só pode ser vivida quando se olha para o futuro”.

Como não entendia, não vivia! Os dias sucediam-se e apesar de aparentemente continuar a sonhar, e como tal a viver, a verdade é que volta não volta o pensamento convergia sempre para aqueles imensos Porquês que fora colecionando. Por que é que (…)?; Foi alguma coisa que (…)?; E se eu (…)?; Porque raio (…)?; e por aí fora…

A bem da verdade, diga-se que não eram só “Porquês”. Eram “Comos”, “Quandos”, “Ondes” e tantas outras interrogações que teimavam em azucriná-lo como moscas em torno do mel.

Os dias deram lugar a meses e os meses a anos. Quem o conhecia, dizia-lhe que o passado não interessava. Que aproveitasse o presente, o aqui e agora que o dia de amanhã ninguém viu.

Ouvia-os, mas não os escutava. Não os entendia e entender era para si quase tão essencial como respirar.

Certo dia, sentiu as pernas fraquejar. Os anos já lhe pesavam e a montanha que outrora subia com uma perna às costas, exigia-lhe agora todas as suas forças e paragens forçadas para descansar. Amargurado, sentido a raiva ganhar corpo e voz, olhou as nuvens altas no céu e das profundezas do seu Ser as seguintes palavras ganharam forma:

 - Não aguento mais contigo! – afirmou, enquanto o atirava para longe. Ao passado. Aquele passado que o impossibilitara de ter um futuro. Que o impedira de viver o presente…

Rouco, exausto mas surpreendentemente leve, limpou as lágrimas que silenciosas escorriam pelos sulcos do seu rosto enrugado e se depositavam nos pelos da sua barba por fazer, olhou a linha do horizonte e sorriu.

Erguer-se já não se afigurou uma tarefa difícil, prosseguir o caminho também não. Pela primeira vez em muito tempo não tinha nenhum Porquê. Os pontos de interrogação já não lhe importavam. Para si, daqui em diante e pelos dias que lhe restassem, queria apenas pontos finais, algumas exclamações e principalmente… reticências. Ah, as reticências... esse maravilhoso sinal de que algo mais nos aguarda. Da continuidade. Da esperança…

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