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Páginas soltas...

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26
Jul18

A casa dos meus avós...

gaivotazul

Ao cimo da ladeira sem saída, em tempos, de areia, fica a última casa da rua. No primeiro andar da mesma, a casa dos meus avós.

Entro pela porta de madeira de verde pintada. Sigo pelo corredor de tacos de madeira encerado. Ao fundo do mesmo, um aparador em pedra esculpida com um espelho oval incorporado dá-me as boas vindas. Faço a perpendicular. Do meu lado esquerdo a cozinha. Pequena e iluminada. Nela recordo uma mesa de tampo laranja e uma pia de pedra sob a janela. Ao lado da pia, uma porta com umas escadas que dão acesso a um quintal partilhado e a uma pequena arrecadação a que chamamos "a cabana". Ao lado da cozinha um dos quartos.  Nele uma cama de casal encostada à parede e sobre a cabeceira um enorme rosário de madeira. (Não sei o que dele foi feito). Ao lado da cama um pesado roupeiro com um espelho na porta do meio. Haverá seguramente uma cómoda mas só sei que aos pés da cama está uma pequena mesa de cabeceira e sobre esta uma pequena boneca de olhos grande e cabelo em pé e um brinquedo, um tomate de borracha com olhos e boca. Ao descrevê-los sei que não faz sentido, e não posso garantir que de facto existissem mas recordo-me  da sua existência. Vejo-me a dormir no chão, numa cama improvisada entre  a cama e o roupeiro, numa das noites em que com os meus tios tive que ficar. De facto, recordo-me que não dormi. Apenas fechei os olhos até que a madrugada chegou e com a manhã os meus pais. 

Do lado oposto, a sala. Nela, um sofá de napa verde escuro, uma mesa de refeições e um louçeiro com portas de vidro com a baixela da família. Por cima da mesma, a coleção de latas do meu primo. São tantas e tão bonitas. Um verdadeiro tesouro para um adolescente e para a sua prima ainda criança. A sala comunica com o outro quarto da casa. O quarto do meu avô. Nele a cama centrada e sob a janela uma cadeira. A cadeira do meu avô. Onde ele se senta e olha a rua e para lá da rua enquanto fuma o seu cigarro.

Estranho. Nada recordo da casa de banho da casa...

A minha mãe cresceu nesta casa. Dela saiu aos 20 anos quando se casou. E no entanto nada há nesta casa que diga que nela viveu...

A minha avó educou e criou as suas filhas nesta casa. Consigo imaginá-la a fazer uma omelete de bacalhau (memória criada a partir das histórias que a minha mãe  me contava) ou junto à pia de pedra da cozinha. Contudo, julgo nada haver nesta casa que ateste a sua passagem por ela. Partiu bem antes de eu nascer. Continuou a zelar por nós como sempre fez. Tornou-se o nosso anjo da guarda. 

 

Ao cimo da ladeira hoje alcatroada, ainda que sem saída, já é possível inverter a marcha com facilidade.

No primeiro andar da ultima casa da rua, a porta de madeira e os caixilhos das janelas deram lugar ao alumínio. Desconheço quem lá more. Para mim será sempre a casa dos meus avós. do meu avô. Uma casa que é muito mais que as suas paredes e os parcos móveis do seu interior. Uma casa que é feita das  memórias de quem nela viveu. Vou pedir a minha mãe que me conte e torne a contar as suas histórias. Para que não sejam esquecidas. Para que perdurem no tempo através das memórias  que não sendo minhas serão também dos meus filhos. (Assim também eu as consiga contar.) 

 

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