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Páginas soltas...

Páginas soltas...

07
Mai21

Desafio de escrita 3.0

Tema 1 - Foi o que ouvi

gaivotazul

Numa noite de inverno,

promessas de algo eterno.

Junto à lareira a crepitar, 

senti o coração palpitar.

Enquanto isso, lá fora o vento uivava

e a chuva, solidária, cantava.

 

Na manta que me aconchegava,

em lembranças navegava.

Eram ternas as palavras

que ao ouvido sussurraras.

Sentimentos outrora velados,

segredos agora desvendados.

 

Rompia a aurora, o lume adormecia.

Ao longe um galo cantava,

enquanto um cão ladrava.

E na torre da igreja batia,

anunciando a alvorada,

o sino da abadia.

 

Vencida a preguiça,

era hora do torpor abandonar.

A chuva já parara,

por entre as nuvens o sol despontara.

Saí para caminhar,

sentir a vida a acordar.

 

Eram vozes abafadas, sonoras gargalhadas

que de uma janela me chegavam.

Eram risos cristalinos, de espíritos vespertinos,

que noite após noite se entregavam.

Eram pássaros a chilrear e gatos a ronronar,

Crianças a brincar e idosos a conversar.

 

Enquanto por ali andei, tudo isto escutei.

Já o sol ia alto, quando finalmente me deitei...

Mantive a janela aberta, para o som deixar entrar,

qual canção de embalar, deixei-me pelo sonho navegar.

Ver a imagem de origem

 

07
Mai21

Quem conta um conto acrescenta um ponto...

os desafios da Abelha

gaivotazul

(Dando continuidade ao desafio aqui lançado, e ao convite dirigido pela Maria...)

 

Já vos disse. Por baixo desta carcaça velha, sou um coração mole. Mas odeio as pessoas. A bem da verdade, só cá p’rá gente que ninguém nos ouve, odiar e amar são duas faces da mesma moeda. Já o dizia a minha mãezinha. Que Deus a guarde.

Acho que no fundo no fundo, odeio aquilo em que me tornei. Esta solidão que me consome.

No final das contas, o que tenho eu de meu? Nada! Só este atarracado e velho estaminé como eu.

O último ano foi duro, muito duro. Esta pandemia privou-me de tudo. Até das pessoas com quem diariamente refilo e que “odeio”.

É esse o meu papel na sociedade. Sou o velho rezingão que ladra ladra mas não morde. Que refila com o choro das criancinhas por não suportar ouvi-las chorar e que, como tal, tem sempre um chupa-chupa pronto p'ra lhes dar. Que resmunga com o jornal de mão em mão mas que todos os dias faz questão de comprar. Que entredentes contesta cada copo de água solicitado mas que mantém na prateleira por cima da pia cuidadosamente alinhados e prontos a servir.

Odeio pessoas, porque odeio delas depender e sentir a dor da sua ausência.

Para que este desafio possa ter continuidade, convido a MJP a escrever em Liberdade.

03
Mai21

A Mãe de minha Mãe...

gaivotazul

Envergava a escuridão da noite mas irradiava a luz do Sol e o seu calor.

O seu regaço era um porto de abrigo onde aportar em dias de borrasca ou tempestade.

Quando a bonança se instalava, também nele era bom repousar.

Seus longos cabelos, entrançados pela brisa em noites de luar, mantinha cativos em intrincada rede de emalhar.

A mesma malha que nas águas profundas abraçava cardumes de prata que emprestavam seu brilho ao firmamento.

A simplicidade do seu caminhar conferia-lhe a graciosidade das andorinhas que também de negro trajavam.

A humildade em que crescera exalava de cada um dos seus poros a essência de uma grandiosidade ímpar.

Nas suas mãos o sabor a sol e a sal.

E no olhar, esse verbo chamado Amar!

 

 

27
Abr21

A tatuagem e o cão!

gaivotazul

- Oh meu Deus! O que fiz eu?!

- Oh meu Deus! Não me lembro de nada...

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Francisca olhava-se ao espelho, incrédula! Na noite anterior saíra com as amigas para celebrar a amizade que as unia. Acreditava que passar da condição de solteira para casada, o que aconteceria daí a dois dias, não teria qualquer impacto sobre a mesma. Conheciam-se desde a adolescência e juntas haviam vivido inúmeras aventuras e desventuras pelo que a mesma jamais seria beliscada por uma simples alteração no cartão do cidadão.

Lembrava-se de dançar como se ninguém a visse, de rir muito e de beber um pouco. Afinal de contas era dia de festa e o calor da pista de dança convidada a uma ou outra bebida refrescante.

Não se recordava do caminho para casa. Tinha a vaga ideia de um desafio irrecusável e de umas luzes de néon vermelhas a piscar. Algo aberto 24 horas por dia e de aspeto duvidoso mas que por alguma razão parecia extremamente convidativo.

Enquanto observava no espelho a pele vermelha e dorida do seu ventre, tela outrora imaculada onde agora se lia "Amo-te Xico", toca o telemóvel. Era o João, o seu namorado e agora noivo... O que iria ele pensar? Como lhe iria explicar?!

Rejeitou a chamada, pegou na mala e na chave do carro e enquanto saía disparada de casa atirou para trás um "- Mãe, vou sair para comprar um cão!"

 

-------------------//-----------------

A Ana lançou novo desafio. Uma imagem que primeiro se estranha e depois se entranha. Um olhar que nos prende e nos pôe a imaginar as mil e uma situações que poderiam ter suscitado o mesmo.

Já tinha escrito um texto em resposta ao mesmo, mas sentia que este desafio pedia um pouco mais de humor. 

Espero que se divirtam a lê-lo, tanto quanto eu me diverti a escrevê-lo.

26
Abr21

Nem mais um “até já”...

gaivotazul

Era difícil acreditar no quadro que na sua frente se desenrolava.

Um misto de emoções tomava conta de si. Raiva, tristeza, incredulidade...Acima de tudo incredulidade.

Como pudera ser tão cega, tão burra. Como pudera ter voltado a confiar quando jurara jamais voltar a fazê-lo.

Dissera-lhe certa vez um professor da faculdade que "engravidamos pelos ouvidos".

Compreendia agora, o que ele quisera dizer então.

Qual marinheiro ou barco à deriva, por um canto de sereia, farol num nevoeiro, deixara-se guiar. Acreditara na veracidade das suas palavras. Deixara-se por elas levar. Deixara crescer dentro de si um incomensurável amor. 

E agora, ao cair do pano, restava-lhe apenas tapar a boca para que nem mais um som dela saísse. Nenhum soluço, nenhum grito, e principalmente, nem mais um "até já".

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               ----------//----------

Texto escrito no âmbito dos desafios da abelha.

https://anadedeus.blogs.sapo.pt/tag/os+desafios+da+abelha

 

 

 

 

24
Abr21

E tu porque pintas?

gaivotazul

Porque pintas?

Pinto porque não sei expressar o que guardo cá dentro de outra forma. Pinto porque não me ajeito com palavras escritas. E então desenho-as. Não como são mas como as sinto. Como as vejo, como as penso.

Pintar é o que sei fazer e pintor é o que sou. Ou será ao contrário? Pintar é o que sou e pintor o que sei fazer?

Pinto porque não sei tocar nenhum instrumento musical, na pauta não aprendi a ler. Então dou cor aos sons que enchem de música o ar que respiro.

Pinto porque dançar não sei. De pincel nas mãos, extensão de mim, são minhas pinceladas meu bailado contemporâneo. A minha forma de expressão, o meu coração.

E tu porque pintas?

Pinto...

 

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19
Abr21

Paz... muito mais que uma sensação

gaivotazul

A Ana, na sua enorme generosidade com que a todos nos acostumou, endereçou-me um convite. Que escrevesse no seu blog sobre a paz e o seu significado. Uma tarefa que de simples pouco tem, já que a paz pode por vezes ser difícil de alcançar ou de sentir, e mais ainda de definir.

Foi uma honra poder escrever sobre um tema tão fulcral quanto a própria existência e juntar assim o meu texto a tantos outros textos. Não será só mais um, não será mais do mesmo, pois cada novo texto revela um pouco da essência dos seus autores. As ideias não se repetem, umas serão mais díspares outras mais similares, e todas elas complementares.

Se tiverem oportunidade, passem por ... Aproveitem para deixar uma mensagem de boa noite (ou de bom dia) à Ana que tanto nos incentiva a humanizar os blogs. 

Que a Paz de que por lá se fala vos inspire e contagie.

----------//----------

Este é o meu pequeno contributo...

Durante muito tempo, procurara por ela. Precisava de a encontrar, desesperadamente.

Não saber se a encontraria, tão pouco por onde começar a procura, angustiava-a.

Por vezes sentia-se prestes a desistir, vencida pelo cansaço e pelo desânimo. Mas era nesse lusco-fusco, em que dia e noite se fundem e confundem, que a encontrava.

Sentia-a quando os primeiros raios da manhã a inundavam de luz. Sentia-a quando abria a janela de par em par e o fresco da manhã lhe trazia o beijo da brisa marítima. Sentia-a quando, de ouvido encostado à areia escaldante da praia, ouvia o respirar da terra.

Via-a no imenso céu azul onde cabiam os sonhos e as orações. Via-a na força da rebentação e na calmia da maré. Via-a nas asas abertas que cruzavam os céus. E via-a na luz do Sol e do luar.

Ouvia-a nas melodias que escutava, nos trinados dos pássaros que nos ramos das árvores cantavam, e no riso das crianças que por ela passavam. Ouvia-a nas vozes devotas dos que amava, e nas trovoadas que o silêncio da noite rasgavam. Também a ouvia aí, no Silêncio.

Saboreava-a de todas as vezes, ainda que com diferentes intensidades. Nem sempre lhe dava o devido valor. Como em tudo na vida, por vezes só quando a perdemos… E então retomava a sua busca apenas para a encontrar dentro de si.

Tinha-se instalado de mansinho à medida que as vozes e ruídos diminuíam e as vivências do dia ficavam para trás. Tinha-se enroscado nas linhas curvas que a caneta que segurava nas mãos desenhara.

O que tanto procurara, A Paz, estava finalmente Aqui!

o que a Paz significa

07
Abr21

Hoje não sou eu quem a conta...

gaivotazul

Hoje não sou eu quem a conta.

As palavras correm em círculos e atropelam os pensamentos já de si dispersos.

Sem fio condutor, torna-se difícil saber o caminho a seguir.

Aumenta a Saudade. Essa saudade que se escreve com "S" maísculo. Que nada apazigua, que ninguém atenua.

Por isso, hoje não sou eu quem a conta. Hoje quem a conta és Tu.

Podes lê-la em surdina ou num silêncio total. Podes lê-la em voz alta ou em alta-voz. Podes até lê-la de trás para a frente, desde que a contes.

E eu, eu estarei aqui a ouvir-te contá-la, uma e outra vez, até que as palavras abrandem, os pensamentos se organizem e a Saudade deixe o ser.

in Saudades do Teu Abraço, de Eoin McLaughlin e Polly Dunbar, editado por booksmile

 

Os livros não têm idade, e se têm, não impõem limites no que à idade de quem os lê toca. Se compreendemos a sua mensagem, se a mesma nos fala ao coração, então a sua leitura é adequada.

Saudades do Teu Abraço... 

 

 

 

 

05
Abr21

Tinha esperança no seu olhar, mas...

gaivotazul

Setembro ficara para trás e Outubro trazia nas asas do vento as tardes frescas. Seria bom ter-se lembrado de trazer algum agasalho. Na falta deste, encontrava conforto na lembrança daquele abraço que findara com um “até já!”. Uma promessa!

Sentara-se na amurada de uma marginal deserta, o sol que mergulhava na linha do horizonte tingia o azul das águas de laranja. Em breve surgiriam no céu as estrelas de que tantas vezes lhe falara, e de que dizia serem feitos.

O seu olhar fixara-se na suave rebentação das ondas que acariciavam o areal. Perdida nas memórias que não se desvaneciam a cada Lua Nova, recordava todas as juras trocadas.

Lembrava-se do exato momento em que lhe segredara que uma mulher de cabelo apanhado era uma mulher comprometida, enquanto lhe segurava entre o indicador e o polegar a madeixa de cabelo que lhe caíra sobre o rosto e a prendia por trás da orelha. Era assim que agora o mantinha, apanhado! Mesmo que alguns teimassem em se rebelar.

Ainda mantinha a esperança no seu olhar. Mas o sorriso que tantas vezes lhe iluminara o rosto havia-se dissipado com a maré…aa.jpeg

 

 

 

 

 

 

 

Texto inspirado no desafio lançado pela Ana que nos inspira a desenhar com palavras.

o desafio de desenhar com palavras.. - © os desafios da abelha (sapo.pt)

 

 

03
Abr21

Voltou a florir!

gaivotazul

Voltou a florir.

Quando abri os olhos, aos primeiros raios da manhã, ali estava ela.

Do outro lado do muro, como se nunca se tivesse ausentado.

Desafia-me a olhar para lá do céu cinzento, concentrando o olhar nas suas pétalas exuberantes.

Não lhe posso tocar, mas sinto a suavidade das suas pétalas.

Não a consigo cheirar, mas o seu perfume é inebriante.

Desafia as leis da gravidade e ergue-se cada vez mais altiva de dia para dia.

Conhece a sua força e exibe-a com orgulho. Não se deixa vergar, não se deixa esmorecer.

Voltou a florir e hoje, aos primeiros raios da manhã, disse-me bom dia!

Não sei por quanto tempo veio para ficar. Sei que vai resistir aos ventos e às chuvas. Que não vai desistir. E quando no céu a lua surgir, incidirá nela o luar para boa noite me desejar.

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