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18
Jun21

Desafio de escrita 3.0

gaivotazul

Naquele dia, as horas haviam custado mais a passar. O calor que se fazia sentir toldava as ideias. O sal das gotas de suor que se acumulavam nas pálpebras, misturavam-se com o sal das lágrimas que a custo retinha fazendo arder os olhos.

Determinada em não ceder, em conservar o controlo sobre os seus atos, sobre as suas escolhas, tentara manter o foco nas pequenas tarefas que se revelavam impossíveis.

Bastara uma simples mensagem para um passado que julgara esquecido se fazer presente.

Como numa tempestade de verão, os sentimentos haviam rasgado todo o discernimento e deitado por terra toda a réstia de racionalidade. Sucumbira à intensidade dos mesmos. Sentimentos que se haviam revelado tão avassaladores como breves. Dissiparam antes mesmo de os conseguir assimilar.

Enquanto tentava costurar os retalhos de uma vida, fragmentos de eventos que ainda conservava na memória, pensava nas parcas palavras que recebera. “Sou eu.”

Não fora preciso mais. Sabia a quem pertenciam. A raiva e a mágoa misturando-se com algo maior, muito maior, do que a sua vontade.

O seu coração estava preso. Fios de prata uniam-no a outro. Tesoura alguma poderia cortar esse laço.

Sentindo nas têmporas o sangue pulsar, atirou alguns pertences para dentro de um saco e, fechando a porta atrás de si, silenciou as vozes que em si ecoavam.

Agora, sentada junto às margens do rio que anos antes testemunhara A Promessa, pensava na ironia de lutar contra o Destino e de acreditar no Livre Arbítrio. Era apenas um peão que aguardava pela próxima jogada na esperança de que desta vez a razão e a emoção pudessem caminhar de mãos dadas e a Vida se cumprisse.

Todd Williams

Todd A. Williams

Texto escrito no âmbito deste desafio. Partindo da premissa "Caramba, quase que conseguia!", o texto deveria incluir as palavras preso, sangue, saco e tesoura.

 

16
Jun21

A busca...

gaivotazul

Olho a chama trémula da lanterna que na mão seguro.

A sua frágil luz dança ao sabor do vento.

Vacila mas não se extingue, não demove o meu intento.

E avanço na escuridão num passo inseguro. 

 

Neste imenso labirinto não me consigo encontrar.

Busco pelo caminho as (tuas) pegadas a seguir.

Este meu coração já não sabe por onde ir.

Onde está o meu porto de abrigo, um cais onde aportar.

 

Entre as estrelas procuro teu olhar para me guiar.

Disseste que estarias sempre aqui para me apoiar.

Crente, acreditei! Deixei-me por ti levar...

 

Preciso de respostas mas por onde começar.

Num mar de interrogações sinto-me naufragar.

Sem bússola ou farol procuro a Estrela Polar.

O meu norte e a minha sorte que tardam em chegar.

 

Em breve será dia mas por ora tenho o Luar por companhia.

Um alento neste deserto, uma esperança fugidia.

Como um abraço que me conforta e embala 

Uma voz, a tua, que me fala..

 

E as respostas hão-de chegar.

the-search.jpg

The Search, Todd A. Williams 

04
Jun21

Desafio de escrita 3.0 - tema 3

O Colecionador de "Porquês"

gaivotazul

O passado fascinava-o. Perceber o porquê das coisas era quase tão essencial para si como respirar. Se não compreendia algo, sufocava no peito uma dor crescente que nele se sentava qual elefante. Crescera a ouvir dizer que “A vida só pode ser entendida quando se olha para o passado, mas só pode ser vivida quando se olha para o futuro”.

Como não entendia, não vivia! Os dias sucediam-se e apesar de aparentemente continuar a sonhar, e como tal a viver, a verdade é que volta não volta o pensamento convergia sempre para aqueles imensos Porquês que fora colecionando. Por que é que (…)?; Foi alguma coisa que (…)?; E se eu (…)?; Porque raio (…)?; e por aí fora…

A bem da verdade, diga-se que não eram só “Porquês”. Eram “Comos”, “Quandos”, “Ondes” e tantas outras interrogações que teimavam em azucriná-lo como moscas em torno do mel.

Os dias deram lugar a meses e os meses a anos. Quem o conhecia, dizia-lhe que o passado não interessava. Que aproveitasse o presente, o aqui e agora que o dia de amanhã ninguém viu.

Ouvia-os, mas não os escutava. Não os entendia e entender era para si quase tão essencial como respirar.

Certo dia, sentiu as pernas fraquejar. Os anos já lhe pesavam e a montanha que outrora subia com uma perna às costas, exigia-lhe agora todas as suas forças e paragens forçadas para descansar. Amargurado, sentido a raiva ganhar corpo e voz, olhou as nuvens altas no céu e das profundezas do seu Ser as seguintes palavras ganharam forma:

 - Não aguento mais contigo! – afirmou, enquanto o atirava para longe. Ao passado. Aquele passado que o impossibilitara de ter um futuro. Que o impedira de viver o presente…

Rouco, exausto mas surpreendentemente leve, limpou as lágrimas que silenciosas escorriam pelos sulcos do seu rosto enrugado e se depositavam nos pelos da sua barba por fazer, olhou a linha do horizonte e sorriu.

Erguer-se já não se afigurou uma tarefa difícil, prosseguir o caminho também não. Pela primeira vez em muito tempo não tinha nenhum Porquê. Os pontos de interrogação já não lhe importavam. Para si, daqui em diante e pelos dias que lhe restassem, queria apenas pontos finais, algumas exclamações e principalmente… reticências. Ah, as reticências... esse maravilhoso sinal de que algo mais nos aguarda. Da continuidade. Da esperança…

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