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Páginas soltas...

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31
Out20

Chegou por baixo da porta...

Desafio I Passa-Palavra#Carta

gaivotazul

Chegou por baixo da porta. Era grande. Bem maior do que qualquer envelope que na caixa de correio pudesse caber. Talvez por isso tenha chegado por baixo da porta.

No lugar do remetente uma sigla - P.A.I.S.,  no canto direito do envelope vários selos azuis perfilados e no local do destinatário, o meu nome numa linda letra manuscrita, perfeitamente desenhada. 

Estranhei! As cartas não nos chegam por baixo da porta, ou chegam!? O carteiro não tocou à campainha, não ouvi os seus passos nas escadas ou o seu "toc-toc" na porta.

Desconfiei! Incentivaste-me a abrir! Senti ser vossa. Desviaste o assunto. Dizias ser uma carta vinda de algum "PAÍS" longínquo. Afirmei ser de bem mais perto. Não confirmaste mas também não negaste. "Abre e ficas a saber!" - repetias...

No seu interior, uma pequena grande demonstração deste imenso Amor que não se define, quantifica ou limita. Que não conhece barreiras nem fronteiras intransponíveis. Capaz de nos elevar e de nos afundar. Incomensuravelmente infinito.  

Os seus bordos estão amarelecidos, manchados pela passagem do tempo. Alguns cantos apresentam pequenos rasgos. O seu conteúdo mantém-se inalterado e a sua mensagem tão vívida como na primeira vez que a li. E aprendi! Aprendi a diferença! Naquele dia tornou-se evidente o que sempre soube, o que sempre senti. A diferença! 

A Diferença chegou por baixo da porta, num envelope grande, remetido com todo o amor pelos meus "PAIS". No seu interior as palavras que no meu coração, de sentimento revestidas, ficaram gravadas:

 

"A diferença entre este postal e o nosso Amor

É que este postal é grande... mas não aumenta!" 

descarregar.jpg

 

 

 

 

 

 

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Texto escrito no âmbito do desafio passa-palavra,

iniciativa proposta pela Mula e pela Mel

14
Out20

E é por ti que me deixo levar...

Desafio I Passa-palavra #Vento

gaivotazul

Naquela noite rugias com redobrada intensidade. Fazias-te ouvir a quilómetros de distância. De um lado para o outro, mostravas toda a tua intempetuosidade. Inquieto, impaciente, selvagem, assim estavas tu.

E no entanto, no instante em que ouviste o meu choro, o meu primeiro suspiro, foste a calma abrupta que no eco da noite se instalou.

Acariciaste o meu rosto, segredaste-me ao ouvido, e não mais me largaste.

Quando não consego dormir, és a suave brisa que me embala.

Quando não tenho com quem brincar, és a corrente de ar que me desafia a por entre as folhas dançar.

Se me encontras irritada, és o sopro que me provoca e despenteia até da ira nada restar.

Se me aquieto, és o sussuro que me conta histórias daqui e d'além mar.

E quando o meu peito se aperta, és o barulho a quem grito as palavras nele guardadas.

Esta noite, como tantas noites desde que nasci, é contigo que vou, e é por ti que me deixo levar...

 

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Texto escrito no âmbito do desafio passa-palavra, iniciativa conjunta da Mula e da Mel

 

 

 

10
Out20

O lápis era a sua voz!

Desafio I Passa-Palavra #Lápis

gaivotazul

Nunca ninguém lhe ouvira uma só palavra.

Durante muitos anos os pais procuraram "uma cura" que nunca chegou.

Eventualmente, acabaram por ceder às evidências e aceitar. O filho nunca viria a falar...

Foi crescendo de olhos postos no mundo. Absorvendo cada som, cada cheiro ou movimento.

Passava horas deitado na relva, ao sol, de olhos postos nas nuvens que lhe falavam de outros lugares que um dia seguramente iria visitar.

Foi no seu sexto aniversário que recebeu pelas mãos do seu avô um presente que mudaria a sua vida.

Embrulhado em papel pardo, atado com corda de sisal, um velho quadro de ardósia com uma espécie de lápis com um magnifico entalhe na extremidade superior - um lápis de ardósia!

Nunca vira um objeto semelhante. O avô segredou-lhe que aquele lápis era mágico. Que através dele poderia comunicar as suas emoções, os seus pensamentos, as suas convições e  as suas ambições.

Desse dia em diante, dentro de uma velha pasta a tiracolo, do tempo em que o avô fora à tropa, para onde quer que fosse levava consigo o quadro e o lápis.

Nele retratava o dia que nascia e se findava em lados opostos da sua casa, os animais que no seu campo de visão perfilavam - da formiga que lutava por romper à superfície, à àguia real que cruzava os céus, os seus pais e o seu avô.

Se estava feliz, era leve e fluído o seu traçado. Quando a zanga imperava, traços pesados e confusos num emaranhado de linhas preenchiam todo o espaço disponível. Felizmente eram mais os dias de sol que de tempestade pois nunca fora de se deixar abater.

Foi crescendo e chegou o dia de do seu avô se despedir. Foi dele o último retrato que na ardósia guardou.

Era hoje um jovem adulto à conquista do Mundo. Do mundo que ainda criança, sabia que haveria de conhecer e conquistar.

O quadro dera lugar a blocos de folhas de papel e na sua mão, bolso ou estojo havia sempre lápis de carvão. Perdera a conta a quantas paisagens imortalizara, a quantas cidades registara. Captava também a imagem da mãe que segurava no colo o filho, ou o casal de idosos que de mão dada passeava. Por vezes fazia retratos a pedido, mas fazia-o principalmente porque era essa a sua forma de comunicar. Sabia ler como ninguém quem nos olhos o olhava, e escutava até o segredo de alma mais bem guardado. Esses, obviamente, a ninguém os contava.

Encontrara a sua voz ainda menino. Fora o seu avô quem lha dera. O lápis era a sua voz!

 

OIP.jpg

 

 

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Texto escrito no âmbito do desafio lançado pela Mula e pela Mel - Desafio Passa - palavra.

 

 

03
Out20

"A Saudade mora Aqui!"

Desafio I Passa-Palavra #Saudade

gaivotazul

Fazia tempo que naquela divisão não entrava a luz do sol. O tempo parecia ter sido suspenso. Como se todos os relógios da casa tivessem parado em uníssono com a última batida de um coração. 

Corri os estores. Os primeiros raios da manhã ainda despontavam. Misturavam-se com a neblina marítima e com o nevoeiro que descia a serra. Transformavam cada partícula de pó num pequeno ponto de luz que dançava em delicados arabescos.

Deslizei os dedos pelos parcos móveis que preenchiam a divisão. O rasto deixado avivou a memória de um passado ainda fresco.

Será sempre fresco... como uma tela a óleo acabada de pintar. Os cheiros não se desvanecem, as cores não se esbatem. Retratam a Saudade.

Saudade! Esse sentimento tão magnânimo que nos eleva e nos transcende, que não cabe num peito que se aperta e contrái ante tão grande sentir. Que nos faz sentir pequenos e nos reduz à nossa condição. Que faz rir, sonhar, esperar e desesperar, que faz chorar; que conforta e faz doer... Saudade!

Numa casa sem Tempo, demorei o meu tempo.

Corri os estores, com um "até breve" me despedi.

Ao fechar a porta senti, "A Saudade mora Aqui!" (...)

 

 

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