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Páginas soltas...

Páginas soltas...

28
Nov19

"Encerro o capítulo de mais um dia"

gaivotazul

Enquanto te aninhas no meu peito, traço o retrato do meu dia.

Há uma certa previsibilidade desconcertante no mesmo. Como se os revivesse num loop  ininterrupto. Vivo (n)um presente  entrecortado por flashes de um passado que talvez não tenha ainda vivido.

Reajustas a tua posição. O sono faz-se sentir mas o sonho tarda. Murmuras qualquer coisa que não consigo decifrar, enquanto dás mais uma volta sobre ti.

Regresso ao visionamento do meu dia. Procuro o que de bom nele subsistiu. Houve um local em que entrei por breves instantes. Não me pude deter pois tinha pressa de partir. Respirava-se uma atmosfera diferente. Deu para notar. O tempo ali corria devagar. Quero lá voltar e demorar-me. Perder-me no tempo que voa sem bater asas.

 

Estás agitada. O meu corpo é o teu ancoradouro mas esta noite    não parece capaz de te tranquilizar.

Brincas com o espaço entre os meus dedos. Num movimento repetitivo que em tempos me tirou de mim. Neste momento sou uma extensão de ti. Tal como tu serás sempre parte de mim.

Cedes por fim ao cansaço. Permaneço imóvel por mais algum tempo. Enquanto escuto a tua respiração que se torna mais e mais profunda à medida que te embrenhas nos sonhos, encerro o capítulo de mais um dia.

 

 

23
Nov19

"Deve ser difícil ser-se tu!"

gaivotazul

A primeira vez que te vi, era manhã! Corríamos apressados, ziguezagueando por entre cruzamentos apertados. Todos corríamos excepto tu. Procuravas alguém que abrandasse o ritmo. Em quem te pudesses apoiar. Em quem confiar.

 

A tua imagem acompanhou-me todo o dia. Tive um vislumbre da tua voz ainda jovem. Parecias meio perdido. No entretanto alguém abrandara o suficiente para te dar as orientações que precisavas. Haviam-te trocado as voltas. Nesse momento pensei "Deve ser difícil ser-se tu"...

 

O dia foi-se desenrolando em tarefas concluídas e por concluir. Acreditamos que haverá sempre O Amanhã e o tempo nunca chega.

 

Não pensei que te tornaria a ver e no entanto ali estavas tu. Caminhavas um pouco mais atrás. Pensei se deveria abrandar o passo. Voltar atrás, abordar-te...

O teu passo era inseguro. Como se desbravasses caminho pela primeira vez. Avançavas cautelosamente, degrau a degrau. 

Tudo o que vi foi a tua bravura e não a cautela. Admirei a tua coragem de quem a cada passo enfrenta a escuridão e o vazio. A coragem de quem diariamente se confia a desconhecidos sabendo que se pode magoar.

Aos meus olhos parecias frágil. No entanto a tua visão mostrou-me o quão forte és.

Os teus medos estão sempre presentes, e ainda assim a todo o instante os enfrentas.

Deve ser difícil ser-se tu! 

Mas cegos somos nós...

 

 

 

 

03
Nov19

"Já não estava Só..."

gaivotazul

Acordou. Olhou pela janela. Estava escuro. Silencioso. O dia ainda nem principiava nascer.
Percorreu o longo e estreito corredor, tateando as paredes. Como gostaria de ter uma luz que lhe alumiasse o caminho...
Uma porta fechada. Rodou a maçaneta e abriu-a.
Sentiu o chão frio sob os pés nus. Estavam nus! Conseguia senti-lo, mas também o via agora. Segurava na mão uma lanterna. A sua luz iluminava o caminho.
Outro corredor. Longo e estreito.
Percorreu-o desejando ter um xaile que a cobrisse e aquecesse...
A meio do corredor uma janela. Não! Apenas o seu próprio reflexo num espelho baço que lhe devolvia o olhar.
Seguiu caminho. Uma porta entreaberta. Empurrou-a e entrou.
Um chão de madeira aquecida pelo lume da magistral lareira mármore. Paredes nuas, sala despida, a quem a chama emprestava cor e movimento enquanto as suas sombras dançavam soltas.
Sentou-de em frente do lume. Adormeceu. Um xaile envolvendo o corpo num abraço. E sonhou.
Sonhou que não mais haveriam corredores longos, estreitos e escuros.
Sonhou com lanternas que lhe iluminavam o caminho e conferiam calor à sua vida. Em cada lanterna o bater de um coração.

Já não estava Só...

IMG_7174.JPG

(Ilustração de Caras Ionut, http://carasdesign.com/)

 

01
Nov19

"(...) prontos para colorir"

gaivotazul

Não o tenho em mim, mas gostava de o ter. De em traços largos e soltos retratar os sonhos. Os meus e os de outros.

Talvez seja algo que se trabalhe. Talvez seja algo que nunca se aprenda.

Durante algum tempo tentei. Era sempre insuficiente. Para mim.

Ainda assim, numa lata, criteriosamente pousada num canto da secretária, mantive os lápis de cor afiados e prontos a colorir as páginas em branco. Preenchi-as com uma intecionalidade arbitrária. Enquanto o fazia, preenchia-me a mim.

 

Gostava de o ter, mas não o tenho em mim.

Talvez seja por isso que goste de apreciar quem, com pulso firme e traçado leve, eterniza a Vida segundo o seu olhar interior.

São cores apaziguadoras ou um turbilhão de emoções. São contrastes marcados ou suaves transições. São ritmos frenéticos ou momentos em que o tempo parou.

São Arte pelas mãos de Artistas. Algo que não tenho em mim.

Mas sobre a secretária, num canto criteriosamente sentido, permanecem os lápis de cor, de bicos afiados, prontos para colorir as páginas que me preencherão. 

 

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