Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Páginas soltas...

Páginas soltas...

25
Abr19

Fios de prata...

gaivotazul

Sei exatamente onde tenho de ir.

Acelero o passo. A respiração ofegante tanto pela subida como pela antecipação da chegada. Faz tempo. Demasiado tempo. Só contabilizando as páginas viradas ou arrancadas do calendário para perceber o quanto tempo passou.

O portão está aberto. Confirmo o horário de relance. De qualquer modo não me posso demorar.

Uma leve flexão do joelho que no ar não chega a tocar o chão, o sinal da cruz e o portão já ficou para trás.

Houve mudanças. Mais uma evidência de que faz tempo. Os degraus de pedra novos, faixas antiderrapantes nos mesmos, e um corrimão para que não nos faltem as forças "nesta hora". Um espaço ocupado que outrora estava vago e que me parece agora demasiado preenchido.

Viro à esquerda e sigo em frente. Procuro o poço. Uma referência de infância. Sei que no poço virarei à direita e estarei mais perto.

Procuro não olhar muito em redor. Ainda assim, sei que naquela lápide se encontra mais uma inscrição. E naquela outra um novo anjo de pedra que chora.

"Overcrowd", sobre-lotado - é o sentimento que me assola. E constato que até na morte há ostentação. Se não dos que partem, dos que ficam.

O poço, já o vejo. Lembro-me de a altura do seu muro me dar pelo peito. De poder olhar nas suas águas escuras em segurança e de nelas ver repousar as flores a elas lançadas por descuido ou intencionalidade. 

Será que sempre foi deste tamanho? As suas paredes parecem-me agora demasiado baixas e pouco seguras. Já não consigo olhar as suas águas e lamento não o poder fazer.

Já estou perto. Sei que estou. E eis que chego ao meu destino. 

Há grandeza na simplicidade. 

Sempre gostei dessa pedra negra que nos dias de sol me queimava as mãos. Lisa, polida, macia, uma pedra que nunca me pareceu dura.

Sobre ela um livro incompleto. Nele constam apenas dois marcos, omitindo todos os outros tão ou mais importantes que os mediaram. E os rostos imutáveis à passagem do tempo que mesmo fixos me devolvem o olhar e sorriem.

Beijo como sempre vi beijar os vossos retratos agora desbotados pelos elementos da natureza. Rezo uma prece silenciosa na certeza de que é por vós ouvida. Peço que seja atendida.

 

Tenho ainda mais uma paragem a fazer. Esta um pouco mais "difícil".

O teu rosto continua a evidenciar uma rudeza que sei que no fundo não tinhas. Uma defesa? Uma necessidade imposta pela vida que levaste? Não sei, mas tento encarar o teu olhar num misto de perdão e algo mais. Ao teu lado um olhar mais apaziguador ainda que menos "forte".

Nova prece, um pedido semelhante.

Fios de prata são eternos.

Voltarei em breve...

04
Abr19

Depois de perder...

gaivotazul

O que nos resta?

Esgotámos todas as conversas que invariavelmente nos conduziram a becos sem saída. Jogámos todas as cartas escondidas nas mangas, e voltámos para cimas todas as faces das cartas sobre a mesa.

 

O que subsiste?

Permanecem altos os muros do silêncio, os gritos mudos e as zangas caladas. Persistem os feitios moldados pelo tempo e os discernimentos por ele toldados.

 

Uma tela em preto.

Onde cabem todas as cores. Todos os sonhos e todos os pesadelos. Onde cabem todas as possibilidades.

 

Sabes, foi depois de perder que percebi.

Depois de te perder, de me perder, de nos perdermos juntos. Foi depois de perder que percebi.

 

Restamos nós. Subsistimos nós.

Um "nós" que tem tanto de individual como de coletivo.

Somos orgulhosamente uma tela em preto pois que nela deixámos os borrões que atestam a nossa existência. Os nossos fracassos e os nossos sucessos. As nossas aprendizagens, jamais os nossos erros.

 

Depois de perder...

03
Abr19

Um "novo" difícil...

gaivotazul

Quero voltar a escrever. Peço-te que me desafies. Já não tenho o tempo e o espaço de outrora. Foi-me retirado, foi por mim cedido num acordo unilateral subentendido. Peço-te, desafia-me. Acedes ao meu pedido sem grande reflexão. Disparas o primeiro desafio que vislumbras. Sinto o embate do mesmo. Estremeço, bloqueio, hesito, não o demonstro. (Espero não o demonstrar). E eis-me aqui. De caneta na mão respondendo ao teu desafio. (Re)começando de novo. Um "novo" difícil. Superei? Superei-me? Não sei. Duvido. Mas aguardo o dia de amanhã na esperança da validação.