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Páginas soltas...

Páginas soltas...

19
Jan19

Estou em casa!

gaivotazul

Não fechei os estores do quarto de banho. Bolas... devia tê-los corrido... Porque carga de água não o fiz?!

 

De olhos fechados, no meio de cobertores, debato-me entre o sair do quente da cama para os fechar correndo o risco de despertar ou simplesmente ignorar a luz que pela janela entra, escondendo dela o rosto, para que a noite que se finda se delongue por mais alguns minutos.

Neste acordar sem despertar, oiço a chuva que com intensidade lá fora cai. Bate com força nas persianas corridas da casa e na laje do quintal. Desafia-me. Convida-me a contemplar o cinzento do céu que se fechou para que a mesma pudesse cair e beijar a terra. 

 

Uma gaivota. Não preciso de a ver para saber que uma gaivota cruza o espaço aberto em frente à janela do meu quarto. Oiço o seu canto. Também ela me chama.

 

Vencida, pela luz, pela chuva, pela natureza, atiro para trás os cobertores e abro por fim os olhos. Corro os estores e contemplo a ausência de um horizonte.

No seu lugar, um mar e céu indissociáveis e indistinguíveis. Um perfeito cinzento que não se sabe onde começa ou termina. Uma imensidão em que nesta manhã me perco.

 

Estou em casa!

 

18
Jan19

...para o bem, e para o mal

gaivotazul

Continuo a deixar-me afetar por ti. Mais do que admito, muito mais do que gostaria.

Haverá seguramente uma razão plausível para que simples afirmações desencadeiem tamanho turbilhão de emoções.

Pior. Não sei esconder. Tudo em mim se altera. A postura corporal, a entoação na voz, o rubor nas faces e o olhar. O olhar, esse é o primeiro a denunciar-me, qual traidor.

Como gostaria de encobrir o que  dentro de mim vai nesses momentos. Mais. Como gostaria que nem tu nem nada dito ou feito por alguém como tu me afetasse. 

Mas não seria eu se assim fosse. Eu sou aquela que não  esconde, de olhar mais transparente do que gostaria, mas um olhar que ainda que me atraiçoe não me trai. Acaba sempre por revelar a minha essência... para o bem, e para o mal.

 

18
Jan19

...

gaivotazul

Executo o gesto como tantos anos antes te vi fazer. Como cedo me ensinaste.

Repito o movimento uma e outra vez e recuo à infância de outrora.

Tanto mudou e todavia tanto permanece igual... A mesma sensação, o mesmo cheiro, a mesma leveza e a tua presença materializada no gesto realizado.

De alma repousada, repousa agora o corpo e a mente.

Minto. A mente, essa, dificilmente repousará. Salta de uma memória para outra e agita-se a cada velho ou novo pensamento que a assola, viaja ao sabor das sensações causadas pelo gesto repetido até que nem um vinco ou ruga se faça notar e que me envolve num doce e fresco aroma no qual agora me aconchego. 

Presa a ele, a este aconchego, sou agora livre de partir...

 

13
Jan19

As palavras que escreveste...

gaivotazul

As palavras que escreveste são tuas, não me pertencem. E no entanto sinto por elas uma ligação como se por mim tivessem sido proferidas. Como se as emoções nelas retratadas fossem minhas e não tuas. Talvez sejam nossas ou a ninguém pertençam.

Nas linhas por ti traçadas dou comigo a viajar por lembranças do que não vivi mas que com precisão recordo. Impossível, dirás? Não há impossíveis, responderei. Apenas possibilidades que não chegámos a considerar e que se revelariam como certezas absolutas.

As palavras que escreveste não me pertencem. São tuas. Mas são minhas as lágrimas por entre os sorrisos por elas causadas.

 

 

 

13
Jan19

...

gaivotazul

Todas as noites te escrevo. Contigo partilho, por vezes a medo, o que durante o dia na alma guardo. Sentimentos que não podem ser revelados, pensamentos que não devem ser verbalizados, partes de mim que no escuro habitam. Mas quando a noite cai, quando o escuro se torna um escudo protetor e a chave dos sonhos se roda, eu saio para a luz e os meus pensamentos são audíveis e os meus sentimentos explorados.

Nada fica por dizer quanto te escrevo tudo o que não digo.

Ao acordar resta em mim a exaustão de mais uma noite em que te escrevi. Em que revisitei a história e em vão a reescrevi. Certas coisas não podem ser alteradas, mas com o tempo, quem sabe?... talvez possam ter uma outra leitura...