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Páginas soltas...

Páginas soltas...

25
Out18

No coração do meu Outono...

gaivotazul

Flutuo sobre a relva em que caminho.  Apesar de os meus passos a calcarem, nela não deixo a minha pegada.

São passos leves os que dou. O peso que outrora carregava ficou depositado na entrada do jardim. Do lado de fora dos portões.

 

O vento sopra entre a folhagem das árvores. Oiço as gargalhadas das folhas que se soltam e que em torno de mim rodopiam. Como as fadas que habitam os nossos sonhos de menina. Formas de vida que nos fazem crer não existir.

 

Ergo o rosto ao Sol. Sinto na pele dos braços ainda desnudos o toque dos raios que me arrepia. Uma espécie de carícia. A prova irrefutável de que há mais, muito mais, do que o que a vista alcança.

 

Estendo o braço e toco o ar que me envolve num abraço delicado. Afago o seu rosto agreste que tanto me apazigua.

Não estou só. Nunca estive. Mesmo quando assim me senti...

 

Flutuo. Sorrio. Deixo do lado de fora dos portões a bagagem indesejada. Permaneço neste dar e receber, neste tocar e se deixar tocar enquanto a música ecoar. E ela vai ecoar, uma e outra vez, no coração do meu Outono...

 

24
Out18

Pelo menos para Alguém...

gaivotazul

 

Sentada nos degraus de pedra suja, negligenciada com o passar do tempo, onde a luz do sol não incidia, esperei.

Esperei pela hora em que nos reuniríamos. Em que o meu olhar se fixaria no teu e o teu abraço me envolveria.

Enquanto esperava, vi os passos apressados sem rosto que de um lado para o outro corriam. Contrariamente a mim, esses não esperavam. Antes corriam ao encontro de algo ou de alguém. 

Enquanto esperava, ouvi ao longe a urgência das sirenes. Também elas corriam contra o tempo, lado a lado com a vida ou a morte...     

Reparei então numa pequena inscrição na pedra gravada. Uma inscrição que parou o tempo. A sua nitidez não foi ainda alterada. O seu significado, espero, imutável.

23/02/2017

 

Esta é a data. Importante. Memorável. Digna de registo. Pelo menos para alguém...

 

 

IMG_5161.JPG

 

 

 

 

 

 

24
Out18

Vamos!

gaivotazul

Vamos deixar correr as palavras, uma a uma, lentamente; em cadência ritmada, cada vez mais veloz; num ritmo desenfreado como rio que galga as margens e beija os campos em redor. 

Vamos deixar correr as palavras na direção que lhes aprouver. Sem restrições, sem condições.

Deixar que falem dos momentos felizes, dos instantes de loucura, da solidão, do desassossego, da esperança fugaz que se quer duradoira.

 

Vamos deixar correr a tinta impressa com a nossa digital. Única, confusa, sem nexo, eloquente.

Vamos deixar correr a tinta contida em depósitos que a restringem. Deixar que transborde e borre as páginas imaculadas e sem cor.

 

Vamos repetir o gesto uma e outra vez até à exaustão. Vamos deixar que se reinvente a cada nova execução. Vamos repetir o gesto de que nosso pouco tem de tanto que foi repetido, apropriado e expropriado. 

 

Vamos. Vamos seguir em frente sem pensar no que virá depois. Que importa o sentido? Sentido esse que não é por nós atribuído e que se sujeita a julgamentos e interpretações. Que importa a direção? Direção essa que muda consoante as mãos que tomam as rédeas.

 

Vamos abraçar a liberdade do desconhecido. Do que ainda não foi validado, testemunhado, confirmado. 

Vamos abraçar a liberdade de que tão facilmente abdicamos.

 

Vamos ser como o filme mudo, a preto e branco projetado na tela. Vamos escutar as vozes inaudíveis a quem somente vê sem sentir. Vamos atribuir as cores invisíveis a quem somente chama a si o papel de observador e não se deixa envolver.

 

Vamos. Vamos ser a palavra escrita a tinta permanente que borra sem medo as margens do nosso caderno. Vamos ser o gesto que nos define mas não nos limita. Vamos reiventar-nos a cada instante. Ou permanecer imutáveis no nosso jeito inconstante de ser. 

 

Vamos deixar de procurar fazer sentido. O sentido é sobrevalorizado. Vamos antes sentir. Atribuir diferentes significados ou persistir no mesmo. No fim... será só nosso e de mais ninguém.

 

 

 

 

 

 

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