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Páginas soltas...

Páginas soltas...

28
Jul18

...

gaivotazul

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Disseste que quem canta reza duas vezes. Deus sabe o quanto preciso de rezar, o quanto preciso cantar. Mantemos as nossas preces privadas, fazemos as nossas orações em silêncio. E no entanto preciso gritar com quanta força me restar. Preciso cantar a plenos pulmões toda a minha emoção. Libertar todas as orações ditas a medo e sem convicção.
Preciso de me encontrar com Deus. Através da música se for esse o caminho. Disseste que seria. Poderá não ser o único mas poderá ser o meu.  Sentada neste banco, ao ouvir as tuas palavras, sinto crescer em mim a voz que diz:

"Levanta-te, ergue a tua voz, não olhes ao teu redor, vê com o coração e canta. Canta cada palavra com a intensidade que merece. Como se não houvesse amanhã e nada ficasse por dizer. Despoja-te de tudo o que te consome, do que obscurece o teu sorriso e ensombra o teu coração. Esta é a minha casa, e nela os fantasmas são vencidos. Concentra-te na luz que pela cúpula entra e que ilumina a nave desta catedral. A passadeira de pedra está estendida para ti. Para que os teus pés saibam por onde caminhar. Sem medo. Confiante." 

 
Ouvi o que disseste. Que quem canta reza duas vezes. Se não te importares, agora vou rezar...

26
Jul18

A casa dos meus avós...

gaivotazul

Ao cimo da ladeira sem saída, em tempos, de areia, fica a última casa da rua. No primeiro andar da mesma, a casa dos meus avós.

Entro pela porta de madeira de verde pintada. Sigo pelo corredor de tacos de madeira encerado. Ao fundo do mesmo, um aparador em pedra esculpida com um espelho oval incorporado dá-me as boas vindas. Faço a perpendicular. Do meu lado esquerdo a cozinha. Pequena e iluminada. Nela recordo uma mesa de tampo laranja e uma pia de pedra sob a janela. Ao lado da pia, uma porta com umas escadas que dão acesso a um quintal partilhado e a uma pequena arrecadação a que chamamos "a cabana". Ao lado da cozinha um dos quartos.  Nele uma cama de casal encostada à parede e sobre a cabeceira um enorme rosário de madeira. (Não sei o que dele foi feito). Ao lado da cama um pesado roupeiro com um espelho na porta do meio. Haverá seguramente uma cómoda mas só sei que aos pés da cama está uma pequena mesa de cabeceira e sobre esta uma pequena boneca de olhos grande e cabelo em pé e um brinquedo, um tomate de borracha com olhos e boca. Ao descrevê-los sei que não faz sentido, e não posso garantir que de facto existissem mas recordo-me  da sua existência. Vejo-me a dormir no chão, numa cama improvisada entre  a cama e o roupeiro, numa das noites em que com os meus tios tive que ficar. De facto, recordo-me que não dormi. Apenas fechei os olhos até que a madrugada chegou e com a manhã os meus pais. 

Do lado oposto, a sala. Nela, um sofá de napa verde escuro, uma mesa de refeições e um louçeiro com portas de vidro com a baixela da família. Por cima da mesma, a coleção de latas do meu primo. São tantas e tão bonitas. Um verdadeiro tesouro para um adolescente e para a sua prima ainda criança. A sala comunica com o outro quarto da casa. O quarto do meu avô. Nele a cama centrada e sob a janela uma cadeira. A cadeira do meu avô. Onde ele se senta e olha a rua e para lá da rua enquanto fuma o seu cigarro.

Estranho. Nada recordo da casa de banho da casa...

A minha mãe cresceu nesta casa. Dela saiu aos 20 anos quando se casou. E no entanto nada há nesta casa que diga que nela viveu...

A minha avó educou e criou as suas filhas nesta casa. Consigo imaginá-la a fazer uma omelete de bacalhau (memória criada a partir das histórias que a minha mãe  me contava) ou junto à pia de pedra da cozinha. Contudo, julgo nada haver nesta casa que ateste a sua passagem por ela. Partiu bem antes de eu nascer. Continuou a zelar por nós como sempre fez. Tornou-se o nosso anjo da guarda. 

 

Ao cimo da ladeira hoje alcatroada, ainda que sem saída, já é possível inverter a marcha com facilidade.

No primeiro andar da ultima casa da rua, a porta de madeira e os caixilhos das janelas deram lugar ao alumínio. Desconheço quem lá more. Para mim será sempre a casa dos meus avós. do meu avô. Uma casa que é muito mais que as suas paredes e os parcos móveis do seu interior. Uma casa que é feita das  memórias de quem nela viveu. Vou pedir a minha mãe que me conte e torne a contar as suas histórias. Para que não sejam esquecidas. Para que perdurem no tempo através das memórias  que não sendo minhas serão também dos meus filhos. (Assim também eu as consiga contar.) 

 

26
Jul18

Ao fechar do livro, não se acaba uma história...

gaivotazul

"E saí para sempre das vidas delas, transformando-me numa das últimas linhas da sua história."

 

Leio a frase devagar, retirando dela todo o seu sentido. Quando a terminar de ler, sei que terminará a história que nos foi contada, não por uma mas por várias personagens numa narrativa complementar. Como complementares somos uns na relação com os outros. O mundo é bem mais pequeno do que se possa pensar, e se de facto for redondo voltaremos sempre ao ponto de onde partimos. 

 

Durante semanas viajei nas páginas deste livro. Uma viagem tanto física quanto emocional. Percorri países e fronteiras que não conheci e que nunca atravessei. Vi-me em cenários de guerra e desolação onde a esperança encontrou forma de irromper. Onde a distância jamais conseguiu quebrar os laços. De sangue mas principalmente de afeto. Vislumbrando o fim da última página, encerro a certeza de que não será o fim da história e que a este mesmo livro voltarei em breve, e por mais que uma vez. Como se ao fazê-lo conseguisse entender o que não percebi, ver o que não vi, escutar o que não ouvi... A vida de alguém não termina simplesmente porque sobre ela se deixou de escrever. A Vida de alguém não se esgota nas linhas que foram escritas. Tão ou mais importante será o que ficou por ler que ninguém quis escrever. Sei que ao fechar do livro, não se acaba uma história.

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19
Jul18

"As pessoas deviam dançar mais!"

gaivotazul

Aguardo. (Parece que estamos sempre a aguardar por algo ou alguém).

Enquanto aguardo olho pelo vidro e sorrio. O meu olhar deteve-se quando te viu dançar.

Na companhia de duas colegas, gingas desengonçado ao ritmo de uma música que só tu ouves e que eu só posso imaginar.

Páras por breves instantes para logo retomares o teu bambear de ancas.

Continuo a sorrir e penso "as pessoas deviam dançar mais".

Sabes que mais, não vou mais aguardar. Vou seguir o teu exemplo e vou dançar. E vou sorrir sabendo que, como tu, farei outros sorrir e, quem sabe, levá-los-ei a dançar. 

 

 

18
Jul18

Afinal talvez deva...

gaivotazul

Talvez não devesse. E na maioria das vezes digo a mim mesma que me vou manter calada. Que serei mera espectadora da cena que a seguir se irá desenrolar. Mas uma vez confrontada com a situação, uma vez chegada ao local, não me consigo conter e começo a falar. Tomo as rédeas, assumo o controlo e ajusto o discurso. 

Talvez não devesse, mas há um limite para as barbaridades que se conseguem ouvir. Como podem os comandantes e capitães precipitar, deliberamente ou por incompetência, as suas embarcações contra as rochas?     

Nestas alturas sei que, por muito que não queira, nasci para liderar. E não quero. Mas é inerente ao meu ser. Tenho em mim as competências necessárias para o fazer. Por outro lado, quando nem do meu próprio barco assumo os comandos como poderei dizer a outros como navegar?

Talvez não devesse. Repito para mim que farei somente o trabalho que me compete. Descuido-me. Apanho no ar uma frase que antecede uma ação com a qual não concordo. Que sei estar incorreta. E não me contenho. Puxo a mim a responsabilidade de fazer mais e melhor. De fazer bem. Sobrecarrego-me e inevitavelmente sobreponho-me.

Talvez não devesse. Mas como não agir quando sei diferente. 

Concluo agora que talvez não devesse. Que talvez não devesse questionar. Concluo agora que talvez devesse. Talvez devesse assumir quem sou, como sou.  

Se sei fazer que faça. Se sei falar que  fale. Não pelos outros mas por mim. Para que não me diminua nem me demita das minhas capacidades ainda que com elas venham as responsabilidades. Por que essas sempre vêm. Quer queiramos quer não.

Afinal talvez deva...

 

18
Jul18

Egoísmo é preciso...

gaivotazul

No tempo que me resta queria ter-te por companhia. Num ato de egoísmo queria usufruir desse tempo sem que há nossa volta um atropelo de vozes ocorresse.

Dificultam ouvir-te. Dificultam sentir-te.

Atos de egoísmo são por vezes necessarios. Só sabendo onde estou poderei dar a outros orientações. Só sabendo quem sou poderei ajudar outros a descobrirem-se.

Por egoísmo, pego em ti e busco um canto para nós.

Encontro-me. Sinto-te. Demoro-me nos instantes finais que nos sobram.

Parto. E levo-te comigo.

Ainda que outros não te vejam ou sintam. Eu sei. Eu sinto.

Fui egoista. Sou egoista. Temporariamente. Mas apenas para que possa ser permanentemente altruísta. 

14
Jul18

...

gaivotazul

Tem noites em que não te toco. Em que apesar do teu apelo incessante e da tua pergunta ainda por responder que permanece suspensa no ar, apago a luz e viro as costas.

Tem dias em que aguardo com expectativa a chegada da noite para te poder tocar. Para te sentir nos meus dedos. Em que a luz permanece acesa pela madrugada fora e devoro as palavras que me darão a resposta à pergunta por ti formulada.

Há noites em que somos só tu e eu. Nas quais embora já não tenhamos uma posição confortável para estar, insistimos na presença um do outro.

Há dias em que sou só eu. Um eu que procura por Si para te poder responder a Ti.

Afinal, colocas-me uma simples questão que se reveste de uma complexidade sem fim.

"Diz-me quem sou"...

Talvez um dia te saiba responder. Talvez uma noite te possa dizer.

10
Jul18

Noites vencidas...

gaivotazul

Esta noite mantiveste-me acordada.

Dormia quando me sussuraste ao ouvido o que eu não queria ouvir.

Em vão procurei afastar-te, ignorar-te.

Insististe, investiste. Não me deste outra saída que não a de reconhecer a tua presença.

Já desperta, resignada, procurei encarar-te. Nesse momento, escondeste-te num canto qualquer, evitando o meu olhar num gesto de cobardia.

Porque me acordaste se agora te escudas?

 

Ainda esperei por ti. Quando me cansei e baixei a guarda voltaste a insurgir-te.

Que prazer deves sentir ao me atormentar. Ao privar-me de um descanso há muito almejado e tão necessário a que só nos meus sonhos acordada posso aspirar.

Não quero os teus segredos sussurrados. Não quero o que me dizes na calada da noite se coragem não tens para o dizer à luz do dia. Se nas sombras te escondes.

 

Amanheceu. No meu corpo as marcas por ti deixadas como um troféu exposto.

Não as vou esconder. Ganhaste esta batalha mas  não me dou por vencida.

As marcas apaga-las-á o tempo e com o tempo também tu serás esquecido. 

 

06
Jul18

São cinco da manhã...

gaivotazul

Cinco da manhã.

São cinco da manhã.

Não dormes nem deixas dormir.

Em mim a frustração crescente que aumenta a irritação que assume uma intensidade difícil de conter. Difícil de gerir.

Não sei lidar com as tuas ansiedades. Não sei lidar com as tuas angústias que passam do desespero à agressividade no espaço de segundos.

O teu choramingar constante por nenhuma razão tangível para mim e a teu ver por todas as razões.

 

São cinco da manhã. 

O que tu fazes mexe comigo e o que eu não faço também.

Sendo raiva um termo muito forte, é grande a minha zanga.

Estou zangada porque não compreendo e porque a cada minha incompreensão aumenta esta minha frustração.

Onde foi que falhei? Onde é que continuo a errar?

Somos como dois pedaços de madeira que flutuam em direções opostas. Como pode um mesmo rio ter duas correntes contrárias?

Sao cinco da manhã...

Desculpa se não faço sentido.

Estou apenas tão cansada como tu.

 

 

05
Jul18

A escrita é o meu cárcere que libertar-me-á....

gaivotazul

O que é que ainda estou aqui a fazer?

Já devia estar a dormir há muito pois sei que em breve serei forçada a despertar. Serei arrancada abruptamente do sonho. Arrastar-me-ei pelos corredores escuros. A visão a tentar adaptar-se às sombras, os pés tateando o caminho para não tropeçar.

 

Por isso pergunto, o que é que ainda estou a fazer aqui.

 

Não me respondas. Eu sei a resposta.

Estou aqui porque há algo que tem de ser feito que ainda não fiz. Porque há algo que tem de ser dito que ainda não disse. Que tem de ser escrito se assim preferires.  

Mas não quero fazer. Não ouso dizer. Muito menos escrever.

Escudo-me atrás do cansaço. Do pretexto de que amanhã também é dia e que esse dia já não tarda. 

Para além disso é tarde e sei que desse lado me aguardas. Nos sonhos. Onde sempre vens ao meu encontro. 

 

Então, o que é que ainda estou aqui a fazer?

Aguardo que a escrita me liberte. Que me traga a confirmação de que nada mais há por fazer. Que tudo foi dito ou escrito. 

 

Mas ela mantém-me refém. Receia o dia em que seja esquecida. Em que dela não necessite. E assim, vai alimentando esta dualidade. A escrita é o meu cárcere que libertar-me-á.

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