Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Páginas soltas...

Páginas soltas...

28
Jun18

Quando um livro se torna parte de nós...

gaivotazul

Um ano. Passou pouco mais de um ano. Volto a pegar nas tuas páginas e a relê-las de rajada.

Quatro noites encurtadas pela prazer da tua companhia. No rosto o cansaço, na alma o conforto e na mente a inquietude que só tu proporcionas.

Recordo que da primeira vez que te li, ri sozinha como só os sábios tolos podem rir.

O humor sarcástico contido nas tuas descrições fazia-me esquecer tudo em volta e exibir um sorriso rasgado, por vezes até soltar uma gargalhada perante a cena que se desenrolava. Como se a presenciasse. Como se a vivesse. 

Prendeste a minha imaginação desde o primeiro parágrafo. Por ti, tornei-me o narrador passivo desta história. Por vezes confundi papéis e julguei ser um narrador ativo. Uma personagem secundária ou mesmo a principal. Noutras tantas fui mero figurante que do meu canto observava o desenrolar da história. 

Quando assim nos sentimos, como parte da história, não podemos sair a meio. Não podemos ausentar-nos sem saber como termina. Do mesmo modo que não deixamos a caneca de leite com chocolate a meio, nem abandonamos a sessão de cinema.

A curiosidade. A eterna curiosidade de querer saber o que vem depois. De querer saber o que acontece no fim. Contendo a ansiedade que por vezes nos impele a espreitar os capítulos finais.

Não o fiz. Não o faço. Não quando a história nos agarra e queremos saber como acaba mas não queremos que termine. Para que possamos continuar a dela fazer parte. 

Hoje, um ano depois, pouco mais de um ano depois, reli as tuas páginas.

Não ri como anteriormente. O humor embora presente não foi suficiente para me arrancar um sorriso. Algo mudou no espaço de um ano. Eu mudei. 

Desta vez, não foram os momentos caricatos nem a leveza do lado bom da vida que me prenderam os sentidos. 

A frustração, a angústia, o desespero, a dualidade, o conflito reclamaram o seu espaço. O riso deu lugar à lágrima. Lágrima essa que também tinha tido o seu lugar na primeira vez que te li, mas que assumira um papel secundário. O que importava era o Amor. O Amor incondicional. Em que nos anulamos porque o que o Outro necessita se torna mais importante. Porque embora egoísta, o Amor também pode ser altruísta. E esse altruísmo surge quando escolhemos aceitar que jamais o Amor pode negar a quem amamos o direito a escolher. ("Ainda que a mim me toque perder.")

O Amor continua a ser o que importa. Mas bolas,... ser altruista nem sempre é fácil. Às vezes gostava de poder reescrever o final da história...

 

let-go-red-balloon.jpg

(imagem retirada da net)

 

22
Jun18

Consegues ouvir?

gaivotazul

Consegues ouvir?

Shhh... E agora, já ouves?

Eu oiço. Oiço a história que os meus olhos não veêm, desenrolar-se diante de mim.

Não preciso de ver para sentir a emoção expressa na voz e espelhada no rosto.

 

A voz. Essa arma tão forte e poderosa e tantas vezes silenciada. 

Capaz de proferir a mais doce das palavras e a mais feroz de todas. 

Capaz de dar e de tirar. O que de bom e mau existe.  

 

Consegues ouvir?

Shhh.... E agora, já consegues ouvir?

Para lá do teu egocentrismo, para lá do pulsar do teu batimento cardíaco, escuta o que uma ou mais vozes te tentam dizer. A tua e a de outros. 

Se soubesses o que juntas poderiam alcançar. Se ao menos sonhasses...

Jamais se calaria a tua voz. Essa mesma voz capaz de tirar e de dar. Capaz de fazer acontecer. De te ajudar a Ser.

 

Consegues ouvir?

Shhh...

Agora que finalmente a ouviste, jamais deixes que se cale a tua voz.

 

Eu? Eu, ouvirei a tua voz e através dela sentirei a emoção que os meus olhos não veêm espelhada no teu rosto.

20
Jun18

Banco de pedra...

gaivotazul

Diz-me.

Por que é que no meio de tantos outros bancos - reclinados, com encosto, de madeira - és tu, banco de pedra, o único em que me quero sentar?

Diz-me, por que é que na tua pedra fria sinto calor?

Por que é que na tua pedra dura sinto conforto? 

Por que é que na tua pedra sóbria me sinto inebriada? 

Diz-me...

 

Na tua pedra me sento. Pernas cruzadas sobre a mesma. 

Contemplo com tempo o espaço em volta e ouço as histórias nela gravadas. Histórias que nem a erosão  apaga. 

 

Não mais estou na cidade. Em ti desaparece a poluição sonora e o ruído das luzes. 

 

Quente, confortável, inebriada... estou num banco. Num banco de pedra.

 

 

 

 

18
Jun18

Não é assim tão difícil de entender

gaivotazul

Não é assim tão difícil de entender.

No exercício das minhas funções, ao fim de semana, perguntam-me com frequência se gosto do que faço. À resposta afirmativa e convicta, chovem perguntas.

"Se não é indiscrição, o que é que faz?"; "Se me permite a questão, tem alguma formação superior?"; "Mas... que idade é que tem?"; "Mas tem alguma coisa a ver com a casa?"; "Mas, gosta mesmo?!?"; "Mas...".

Os "mas" sucedem-se. A todos procuro responder.

 

Não é assim tão difícil de entender.

Sim, gosto muito do que faço. Pelo menos na maior parte do tempo.

Gosto de sentir que nas duas horas que passam ali, faço a diferença na vida das pessoas.

Que entram com um sorriso e saem com um ainda maior. Que entram carrancudas e saem mais leves. 

Que presto um serviço. Que atendo à individualidade de quem entra. Que respeito o seu tempo e espaço mas que estou atenta e disponível.

Gosto porque se trabalha verdadeiramente em equipa. Porque o elogio que se recebe é extensível a todos.

Gosto porque o trabalho se reveste de objetivos concretizáveis a curto prazo. Porque em cada turno se tem a oportunidade de começar do zero. Não é um trabalho que fique pendente nem se prolonga no tempo.

Além disso, tenho sempre a música por companhia. Não me coíbo de cantar quando pela aparelhagem passo. Os clientes, alguns, notam e sorriem.

 

Não é assim tão difícil de entender.

Cresci nesta "casa" e corre-me no sangue este gosto de se ser quem se é, quando se faz o que somos.

 

11
Jun18

Olhos que pesam...

gaivotazul

Estou confortavelmente desconfortável aqui onde me encontro.

Nas minhas mãos cruzadas, o toque das vossas. 

Oiço a vossa respiração que me embala os sentidos.

Encosto a cabeça. Os olhos pesam... 

Lá fora só a escuridão da noite sem estrelas para nos guiar.

Tento concentrar o olhar na faixa de rodagem que vai sendo engolida. Os olhos pesam...

Tento focar na música que no rádio toca. As palavras sussurradas vão-se esbatendo. Ouço-as ao longe. Como um vento que segreda. Os olhos pesam...

Não quero adormecer e no entanto já durmo. E enquanto o faço oiço lindas canções que me contam histórias passadas. Músicas perfeitamente encadeadas como os sucessivos capítulos de um livro. Que me levam numa viagem. Que engolem a estrada e a distância. Que sussurram palavras. Que me impedem de adormecer. Ou que me embalam.

Pois enquanto sonhava estar acordada, despertei e não mais estava em viagem. Havia chegado ao destino e no rádio tocava a canção com que sonhara.

Os olhos, esses, ainda pesam...

 

 

11
Jun18

Farei dos meus erros a razão do meu triunfo!

gaivotazul

Hoje falhei. Falhei a nível profissional e como tal falhei a nível pessoal, pois tenho em mim mais competência e sentido de responsabilidade do que aquela que exibi. Descurei uma tarefa que exigia uma leitura mais cuidada por deixar que as emoções toldassem a razão. Como resultado, fiquei aquém do que de mim era esperado.

Não tenho como desfazer o erro. Apenas dele tirar as devidas ilações. Procurar não esquecer que  devo a mim ser o melhor que conseguir. Com tudo o que possa implicar.

Ser profissional nem sempre é fácil. Principalmente quando não gostamos do que fazemos e não fazemos o que gostamos. 

Hoje falhei. Amanhã compensarei a minha falha. Deixarei de lado a emoção. Trabalharei com afinco e eficiência. Farei da razão a minha ferramenta. E triunfarei!

Sim, farei dos meus erros a razão do meu triunfo...

 

out_falhar.jpg

 

08
Jun18

Ausências...

gaivotazul

Passou uma semana. São sete dias. Quase cento e sessenta e oito horas. Mais de dez mil minutos. Tempo de mais no meu entender.

Nesse intervalo de tempo que mediou entre o "então" e o "agora", dei início ao processo por diversas vezes, sem nunca no entanto ser capaz de o concluir. Como se faltasse algo. Como se nele não houvesse alma. Mesmo agora, é difícil. Falta algo. Faltam as páginas em branco do meu caderno esgotado. Páginas que não podem ser substituídas. A caneta não se apraz com as folhas de um qualquer caderno. A escrita não se esgota numa qualquer folha de improviso. Precisa do seu espaço e do seu tempo.

Dir-me-ão "mas é só um caderno". Não, não é só "um" caderno. É uma extensão de mim. Que me acompanha. Com quem compartilho os meus pensamentos em primeira mão. Que recebe sem julgamentos a minha euforia e a minha ira. Que não se importa com as minhas indecisões e amuos. Que aceita os meus enganos e encantos.

Não, não é só um caderno. É "o" meu caderno.

Sinto a sua falta. Deveria ser inesgotável. Mas não é. E tenho de encontrar outro que o substitua. Ao qual possa chamar de meu. O qual posso sentir como meu. Mais do que isso. No qual posso sentir "Sou Eu!".

Espero que não demore muito a encontrá-lo. Que não demore muito a escolher-me.

cb44a4ac0c9783c3c81ac9e7a3928c6d.jpg

 

 

01
Jun18

Juntas-te a mim?

gaivotazul

Em momentos como este gostava mesmo de saber assobiar. 

Junto os lábios, um espacinho entre eles para que o ar possa sair. Sopro... e nada...

Ainda assim sorrio. A música toca. O vento está literalmente a soprar. E eu volto ao teu quarto e à tua companhia onde juntos a ouvíamos.

Simultaneamente, enquanto a canto na sua versão original, recordo com exatidão a sua versão dos Onda Choc.

Volto a ser uma criança e a ter-te a ti por companhia. O meu mano. 

Que possamos em cada fase das nossas vidas continuar a ouvir a mesma música. A ouvir outras tantas diferentes, mas a partilhar uma ou outra pelo caminho.

E como definitivamente não sei assobiar, vou continuar a (des)afinar.

Juntas-te a mim?

 

 

 

 

01
Jun18

No tumulto de um Sonho...

gaivotazul

Estou no palco. Não era suposto mas aqui me encontro eu. Fui empurrada para ele por força das circunstâncias.

Barulho. Está demasiado barulho. Em palco e na plateia. Ninguém está onde deveria. Nem os corpos, nem as vozes, nem as luzes. Faço por os reorganizar mas não consigo. São demais. Tudo está em demasia.

Improviso. Tenho de improvisar. De retomar as rédeas e controlar a situação. Para que se calem, para que se faça silêncio, para que tudo volte a ser e a estar como deveria.

Fecho os olhos. Inspiro fundo. Chamo a mim a coragem e elevo a minha voz. Tem de ser clara e segura desde a primeira nota.

Faz-se silêncio. As luzes diminuem a sua intensidade. Os corpos voltam aos seus lugares, as vozes encontram o seu tempo e as luzes o seu espaço. 

Estou realmente a cantar. E todos estão de facto a escutar. 

Estou no palco. Não era suposto mas aqui me encontro eu. Fui empurrada para ele por força das circunstâncias.

Quando acordar a minha atuação terá terminado. Ficará a sombra da confusão que no sonho vivi. Sobrará a luz da emoção que senti. Interpretações de um sonho que por esta manhã me acompanharão. Bem como a música que nele cantei.

 

 

 

Mais sobre mim

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D