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Páginas soltas...

Páginas soltas...

31
Out17

Que nunca cesse a música entre nós...

gaivotazul

Voltaste a pedir que cantasse aquela música. Aquela música que te faz sorrir, que te faz ficar em silêncio e escutar, que te faz juntar a mim e cantar.

Não sei em que é que estaria o seu autor a pensar quando a compôs. Sei no entanto que cada estrofe conta um pedaço da nossa história.

Espero que conte a história de muito mais pessoas... só assim faz sentido.

 

O Amor quando cantado não se restringe a géneros ou identidades, não se limita pelas convenções sociais. O Amor quando cantado não se confina a um espaço e tempo, não conhece barreiras ou fronteiras. O Amor quando cantado cresce, fortalece-se, ganha asas, voa... O Amor quando cantado torna-se nele mesmo. Em Amor. Em todas as suas formas de expressão, em todas as suas formas de manifestação... Como é grande o Amor. Como é grande "este" nosso Amor.

 

Voltaste a pedir que cantasse aquela música. E eu cantei. Cantei e senti cada palavra com renovada intensidade.

Que ao escutares cada palavra possas também tu sentir o(s) seu(s) significado(s). Que ao cantares cada palavra possas conferir-lhe novo(s) sentido(s).

Se o dia chegar em que eu não ta possa mais cantar, que no teu coração ela possa continuar a ecoar. 

Pedir-te-ei então para cantares essa mesma música. Essa mesma música que me faz sorrir. E, ao cantares, estarei junto a ti, em silêncio, a escutar...

 

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29
Out17

Ao longe o Mar...

gaivotazul

Sentada no areal contemplas o Mar em toda a sua extensão.

Esse mesmo mar que cedo te levou o(s) que mais amaste.

Durante uns tempos, falavas-lhe baixinho, pedindo que te devolvesse o que levara sem pedir. Por vezes gritavas-lhe libertando a tua zanga, raiva, mágoa, desespero. Por fim, pareceste aceitar que ele apenas tomou conta, protegeu e guardou junto a si o(s) que mais te amaram. Não lhe guardaste rancor...

 

Sentada no areal contemplas o mar em toda a sua imensidão.

O sol aperta e incide os seus raios sobre a tua pele do rosto fustigada por incontáveis horas de exposição aos elementos da natureza. O lenço negro que te cobre parcialmente os cabelos e o rosto não é suficiente para amenizar os seus efeitos.

Os anos pesam-te. As tuas vivências marcadas nas finas linhas do teu rosto.

O luto que ainda menina envergaste nunca definiu a tua cor. Nunca murchaste, nunca baixaste os braços. Lutaste e seguiste em frente enquanto as tuas forças o permitiram. Foste esposa, mãe, avó, Mulher.

"Clara" é o teu nome e foi dessa forma - clara - que deixaste a tua marca em nós.

 

Também tu partiste prematuramente mas, de algum modo, permaneceste junto dos que ficaram. É por isso que te conheço mesmo sem nunca te ter conhecido. Cresci sabendo que desse lado olhavas por mim e me davas a mão, ajudando-me a ultrapassar os obstáculos com que ao longo da vida me tenho deparado. Nos momentos mais difíceis é para ti que me volto sabendo que me ajudarás a chegar onde preciso for. Sinto o teu amparo, o teu colo.

Sempre desejei que parte de ti vivesse em mim. Por vezes interrogo-me se terei herdado apenas a inquietude? Gostava que a tua serenidade perdurasse em mim. Essa mesma serenidade com que pareces observar o mar.

 

Olho a tua fotografia. Nela, sentada no areal, contemplas o mar em toda a sua profundidade...  

 

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26
Out17

Sr. José "Sapateiro"

gaivotazul

 

O dia mal amanheceu. Pelas ruas quase desertas, onde um ar frio se respira contrastando com o bafo quente que emanamos enquanto expiramos, apenas alguns transeuntes. Uns para quem o dia estás prestes a terminar e que se encaminham para a cama, outros para quem o dia vai começar e que dela se levantaram faz pouco. 

Com uma voz mais ou menos efusiva, vão-se trocando "bons-dias" entre olhares apressados porque o tempo urge.

A maioria dos habitantes ainda dorme, mas para uma minoria não há tempo a perder. Abrem-se portas, sobem-se estores, içam-se gradeamentos. Tudo tem que estar pronto.

Na leitaria a Sra. Maria separa os pacotes de leite do dia para os clientes habituais; na padaria o Sr. João retira a última fornada do forno a lenha; na mercearia coloca-se a charcutaria a jeito; e no quiosque o Sr. Manuel expõe os jornais  e os diários com as manchetes do dia. 

Devido à força do hábito, e porque a cama já não lhe traz conforto, também o Sr. José se encaminha no seu passo lento, para as quatro paredes que toda a vida o acolheram.

Não tem janelas. Também delas não precisa. Apenas uma porta velha de madeira pintada de azul.

Por ela pára quem passa, por ela entra quem de tempo dispõe para conversar. 

A clientela já não abunda, mas tempos houve em que conhecia quase todos os habitantes da sua (já não tão) pequena vila. Sabia os seus nomes, os nomes dos seus pais e dos pais dos seus pais. Conhecia os seus hábitos e as suas necessidades.  Colecionava histórias de famílias em solas de sapatos.

Nada que enfraqueça o seu ânimo.

Entre as suas quatro paredes, rodeado de graxas, escovas e solas de couro, no meio dos seus utensílios de um ofício de toda uma vida, onde tornos, martelos, alicates e pregos coexistem, é feliz. Coloca a sua bata azul que com orgulho  enverga e ocupa os seus dias com os poucos afazeres que ainda lhe encomendam. Remenda, aperta, encapa, não alarga mais porque simplesmente já não dá. Com mestria prolonga a vida do calçado dos seus ainda fiéis clientes, zelando para que a estes não lhes falte o chão nem o pão. 

E porque no seu pequeno canto cabe toda uma vila, para todos exibe um sorriso, para todos dispõe sempre de uma palavra de conforto. 

25
Out17

Por de trás das Portadas...

gaivotazul

Olho as tuas portadas fechadas e interrogo-me sobre quantas estórias guardas por de trás das mesmas.

Tempos houve em que orgulhosamente as mantinhas abertas para que a luz do sol entrasse.

Hoje, por de trás das tuas portadas fechadas, apenas o pesado silêncio do abandono e o pó como testemunho da passagem do tempo.

Quem por ti passa parece ignorar a tua existência. Não eu. Eu olho para ti e noto a tua presença.

A tua imponência ainda se mantém. A tua magnificência ninguém a tira. E as histórias que guardas a ti pertencem. Preservadas por de trás das portadas que manténs fechadas.

Quantos momentos de alegria testemunhaste? Quantos momentos de dor? Quantas lágrimas de alegria ou tristes sorrisos presenciaste?

Acalento a esperança de que, talvez um dia, quem sabe, as tuas portadas se possam abrir uma vez mais para deixar entrar o sol e que desse modo as tuas histórias possam ser partilhas e recontadas...    

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24
Out17

Desfocadas... e memoráveis!

gaivotazul

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Para uns esta será uma imagem desfocada, sem nexo ou sentido e como tal descartável.

Para mim, esta é a imagem de uma noite memorável eternizada num instante fotográfico.

Nesta noite, o frio ficou lá fora. No meio da multidão apenas o calor humano se fez sentir.

As luzes iluminaram o negro do céu, projetando os seus feixes até às estrelas. No palco, a conjugação de sons e cores captaram a tua atenção.  Com a curiosidade natural de quem assiste ao seu primeiro concerto foste colocando uma ou outra questão mas acima de tudo observaste. Observaste e absorveste tudo o que o teu olhar e a tua mente te permitiram.

Também eu ao teu lado observei e absorvi. Observei o teu rosto de felicidade e absorvi a energia do momento. Cantaste, dançaste, bateste palmas, ergueste os teus braços bem alto e sorriste. Ao sorrires sorri contigo.

Foram as tuas mãos pequeninas e o teu enorme olhar que registaram esta imagem. Uma imagem aparentemente desfocada mas que nunca me pareceu tão nítida. 

Que os anos passem por nós, mas que da nossa memória não se desvaneça a partilha do nosso amor e de tudo o que nos une.

Que no nosso álbum de fotografias se amontem imagens como esta; desfocadas... e memoráveis.

 

23
Out17

Quando o que nos liberta nos prende...

gaivotazul

Quero escrever!

Dizem que escrever liberta, mas e se, ao invés de nos libertar, escrever nos aprisionar?

Tenho imensos pensamentos dispersos, inúmeras frases começadas, outras tantas por terminar, ideias dispersas sem sequência lógica que não  consigo encadear. O cansaço faz-se sentir com particular intensidade dificultando a tarefa.

Por onde começar?... Por onde começar?... A pergunta ecoa em mim na esperança de que ao ser repetida a resposta surja. Deveria começar por fechar os olhos e inspirar fundo deixando o pensamento fluir com naturalidade. Contudo, receio que se o fizer acabarei por adormecer sem me dar conta e passarei a noite a escrever e a reescrever a mesma história uma e outra vez, numa espiral sem principio nem fim.

Volto à primeira interrogação - "E se escrever nos aprisionar?"

Como pode algo que nos confere liberdade nos aprisionar?

Tenho medo! Medo que tal como no passado, as coisas simples que amo, como escrever, sejam menosprezadas, deturpadas, destruídas. Medo que a simplicidade com que procura revestir a minha vida seja abalada por pura malícia.

Sei que a única forma de vencer este medo é ousar. É arriscar uma vez mais dar-me a conhecer e assumir quem sou e o que escrevo sem recear os demais. É acreditar que por cada individuo que não me deseje bem, haverá dois seres a desejá-lo. É acreditar que o Amor tudo pode e tudo vence. É acreditar em mim!

Mas... Mas eu não sou apenas eu. Eu sou eu e todos os que me rodeiam e de mim dependem. O que faço, o que digo, o que escrevo, interfere com todos. Ao expor-me, ao assumir quem sou, exponho todos os que me rodeiam e que não pediram para o ser. E assim sendo, tenho de me manter no meu canto por mais algum tempo, tentando gerir este difícil equilíbrio que nos (in)define.

(...)

 

 

18
Out17

Por que corres?...

gaivotazul

Seguias no teu habitual passo apressado, absorto em pensamentos, tentando não esquecer ao que ias. A meio do percurso estancaste. Olhaste para trás. O teu olhar cansado fixo no meu. Com a voz revestida de exaustão perguntaste sem esperar resposta "Não sei porque é que (ainda) corro?"...

Como gostaria de ter uma resposta para ti. Uma resposta que acalmasse os teus receios, que fortalecesse o teu espírito e te restituísse a esperança no futuro.

Sei que neste momento lutas apenas por te manteres à tona da água, por não deixares que o desalento te derrube. Concentras-te somente no presente. Um dia de cada vez.

Receio o dia em que te deixes vencer pelo cansaço, em que o teu corpo já não tenha força para se erguer e principalmente, em que o teu espírito desista de lutar.

Desejo que esse dia não chegue nunca, na certeza porém de que se um dia chegar, estarei ao teu lado para te amparar, para te dar a mão e percorrer a teu lado, lado a lado, o caminho necessário.

Se "esse" dia chegar, vou correr por ti, do mesmo modo que tu (ainda) corres por mim.

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16
Out17

Suspiro de alívio e dor...

gaivotazul

A Terra estremeceu ao sentir as primeiras gotas de chuva caírem sobre o seu corpo quente e ferido.

Ouviu-se um suspiro de alívio e dor em simultâneo.

Há muito que não se sentiam tantos corações a ansiar desesperadamente por uma só e mesma coisa - chuva.

Há muito que não se ouviam tantas vozes rezarem silenciosamente em uníssono.

Ouviu-se um ribombar forte de trovoada. Ergueram-se os olhos aos céus na esperança de ver e sentir a água cair.

De queixo erguido, peito aberto e mãos elevadas, tocaram-se as primeiras gotas delicadamente com os dedos, em gesto de agradecimento e reconhecimento da sua importância.

Bem vinda chuva! Que a tua água possa apagar as chamas que nos consomem física e emocionalmente. Que a tua água possa lavar os rostos e corpos "escranvunçados" dos que incessantemente resistem, insistem e persistem em combatê-las ao teu lado. Que a mesma possa limpar as lágrimas de sal e sangue dos olhares ensombrados. Que possa levar com ela as mágoas e discursos de ódio inflamados. Que a tua água se revista de verdadeira bênção para os que a receberem. Que possa sanar a terra e a alma dos que nela e dela vivem.

Que a Terra possa finalmente respirar e que, nesse gesto tão simples de inspirar e expirar, nos possamos com ela reerguer mais fortes, unidos e decididos.

Uma outra batalha começa Agora!

 

 

 

16
Out17

O peso do vazio...

gaivotazul

Dia triste este que amanhece e nos enche o coração de pesar...
Dor, tristeza, raiva, revolta, apatia, empatia, reconhecimento da nossa insignificância e simultaneamente da nossa grandiosidade... tantas interrogações, tamanha incapacidade de raciocinar e o eco do silêncio como resposta.
Hoje todos nós acordamos cobertos de cinza.
Cinza para lembrar os que nela se tornaram, cinza para não esquecer os que por ela combatem e todos aqueles que na sua pequenez se fazem grandes com simples gestos que se tornam um abrigo, um porto seguro (ainda que por breves instantes) para todos os que procuram e precisam de um refúgio.
(...)

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(Este texto foi escrito na manhã do dia 18 de Junho de 2017. Uma data que perdurará na memória coletiva de um País.)

 

 

15
Out17

Quando tudo o que podemos fazer é esperar...

gaivotazul

Estou a centenas de quilómetros de casa, do local que me viu nascer e das gentes que me viram crescer.

O pinhal em que brinquei está neste momento em risco de desaparecer à medida que as chamas avançam e ganham terreno.

Quando regressar a casa, sei que encontrarei devastação, um cenário dantesco de cinza e destruição.

Fecho os olhos e vejo as copas verdes das árvores contrastando com o céu azul e a areia branca do areal adjacente. Quero conservar esta imagem viva enquanto me for possível.

Dizem que o que os olhos não veem o coração não sente. Não é de todo verdade. Posso não ver, mas sinto.

Sinto pela natureza destruída, sinto pelos que a tentam proteger e preservar num esforço inglório mas não em vão. Sinto pelos que de "pés e mãos atados" observam o avançar do mar de chamas revolto.

Sinto. Neste momento pouco mais posso fazer para além de sentir.

Quando a hora chegar estarei lá para agir e, se possível for... Reconstruir.

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(Foto cedida por C.M.)

 

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