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Páginas soltas...

Páginas soltas...

11
Jun19

Sobrevivente...

gaivotazul

IMG_7002.JPG

 

Eras somente uma menina carregada de esperanças e sonhos. Que sabias tu da vida e  do que esta te reservava.

Cedo as tuas esperanças deram lugar a preces, e os sonhos a ilusões.

As preces tardaram em ser ouvidas. As ilusões em desespero se tornaram.

A vida passou por ti. Pouco restou da menina de outrora. Foi pelo medo devastada. 

E hoje mulher, és revisitada pelos mesmos fantasmas tão presentes.

 

Sobrevivente!

Não baixes o teu olhar quando na rua caminhas.

Nada deves, nada temas.

És mais forte do que quem te julga. És mais forte do que te julgas.

Nao te julgues! Sobreviveste. Agora vive!

 

 

06
Jun19

...

gaivotazul

No chão da cozinha vi a lua refletida.
A sua luz lembrou-me que a noite já caiu e que no céu estrelas pontuam os sonhos.
Os sonhos dos crescidos e os de quem se recusa a crescer. Porque quando sonhamos todos nós somos crianças. Crianças como tu. Com sonhos guardados na palma da mão. Nessa mão que te acaricia o rosto enquanto dormes. E de quem vê no chão da cozinha a lua refletida.

31
Mai19

...

gaivotazul

Uma janela de portadas brancas de madeira, com lascas de tinta que a maresia reclamou para si.

Janelas abertas de par em par com cortinas brancas que esvoaçam e deixam entrar o cheiro a sal e sabor a mar.

Um trilho que conduz os pés descalços por entre dunas de areia e caniçais. Areia fina e branca pontuada por agulhas de pinheiros, caruma.

Um areal a perder de vista que contemplo partindo da mesa azul recuperada. Uma mesa que alguém deitou fora e não soube valorizar.

Em torno da qual nos reunimos agora  e damos as mãos. Sentados em velhos bancos que o tempo afagou.

Contemplando toda uma vida que não chegámos a reclamar para nós.

E agora, agora a música parou.

 

 

23
Mai19

...

gaivotazul

Quebrar o silêncio...

Quebrar o silêncio seria porventura correr o risco de me quebrar novamente quando a cola com que toscamente colei os meus cacos ainda não secou.

 

Quebrar o silêncio seria voltar a correr riscos quando ainda estou a aprender a andar lado a lado com eles.

 

Por vezes esqueço-me. Esqueço-me que não estou inteira e que talvez nunca mais venha a estar.

Esqueço-me do medo e do vazio e por instantes volto a ser eu. Flutuo, danço, canto, sorrio.

Por instantes, quase quebro o silêncio.

Pudesse eu gritar ao mundo quem sou... mas o medo... e como poderia eu voltar a ficar a coberto da noite, na segurança que só o silêncio me pode dar...

 

 

11
Mai19

Cantei-me a mim!

gaivotazul

Durante meses, ouvi o teu álbum vezes sem conta. Memorizei a tua capa e a ordem das canções, decorei a letra de cada uma das tuas músicas, aprendi a antecipar cada um dos teus acordes.

 

Há álbuns que contam histórias. Têm de ser ouvidos pela ordem com que foram delineados. Não se podem saltar capítulos. E a tua história, é uma história que oiço uma e outra vez.

 

Cantei contigo na rua, sentada no arrebate de uma porta. Cantei contigo na areia, com o mar por companhia.

 

Cantei-te nas cidades em que vivi e naquelas por onde passei.

À luz da lua ou do sol, de um foco artificial ou a coberto do escuro, cantei-te e cantei contigo.

 

Tornei minhas as tuas palavras, atribui-lhes o meu sentido. Sem dar por isso... cantei-me a mim.

 

10
Mai19

...

gaivotazul

Esta manhã, zangada, de rosto fechado, com uma corrente de grilhões, era eu o reflexo de uma manhã que ainda não se libertara das cores da noite.

 

Aos habituais não me apetecia falar. Escudei-me na música. Nao é de bom tom, bem sei. Mas não fora o som e a zanga teria extravasado e atingido quem estava em meu redor.

 

Num casulo improvisado fui executando os meus afazeres. Na solidão experimentei maior eficácia. E na consciência de tal mais só me senti.

 

Rompeu o Sol. Seria de pensar que desejava a sua companhia. Mas não. A sua luz revelava aos outros o que na penumbra tentei esconder. 

A viagem fez-se rápida. Não me deu tempo. Coloquei a máscara e não olhei em frente mas foi por aí que segui.

 

 

10
Mai19

E deixo-me ficar...

gaivotazul

Mergulho nas tuas palavras. Quanto mais me embrenho, menos a luz do dia me ofusca. A pouco e pouco cessam os ruídos da noite e encontro o meu refúgio.

Nas águas das tuas páginas posso flutuar ao sabor da corrente ou apanhar um rápido sem saber onde me levará.

Revisito lugares onde nunca fui, em que nunca estive. Reconheço pessoas que nunca vi na vida, com quem nunca  me cruzei.

Reencontro-me comigo e deixo-me ficar.

 

03
Mai19

'Atão Coração?

gaivotazul

Era sempre assim, desse teu jeito doce e despreocupado, que me brindavas com um abraço apertado e um beijo no topo da cabeça. Até ao dia. Até ao dia em que anunciaste a tua partida e levaste contigo a chave que te havia dado. A "chave do meu coração", dizias a brincar.

É sempre assim que te recordo. Desse jeito doce e despreocupado de quem não liga a expectativas alheias e convenções sociais.

E quando o abraço afrouxava olhavas-me nos olhos e perguntavas:

- 'Atão Coração?

 

 

25
Abr19

Fios de prata...

gaivotazul

Sei exatamente onde tenho de ir.

Acelero o passo. A respiração ofegante tanto pela subida como pela antecipação da chegada. Faz tempo. Demasiado tempo. Só contabilizando as páginas viradas ou arrancadas do calendário para perceber o quanto tempo passou.

O portão está aberto. Confirmo o horário de relance. De qualquer modo não me posso demorar.

Uma leve flexão do joelho que no ar não chega a tocar o chão, o sinal da cruz e o portão já ficou para trás.

Houve mudanças. Mais uma evidência de que faz tempo. Os degraus de pedra novos, faixas antiderrapantes nos mesmos, e um corrimão para que não nos faltem as forças "nesta hora". Um espaço ocupado que outrora estava vago e que me parece agora demasiado preenchido.

Viro à esquerda e sigo em frente. Procuro o poço. Uma referência de infância. Sei que no poço virarei à direita e estarei mais perto.

Procuro não olhar muito em redor. Ainda assim, sei que naquela lápide se encontra mais uma inscrição. E naquela outra um novo anjo de pedra que chora.

"Overcrowd", sobre-lotado - é o sentimento que me assola. E constato que até na morte há ostentação. Se não dos que partem, dos que ficam.

O poço, já o vejo. Lembro-me de a altura do seu muro me dar pelo peito. De poder olhar nas suas águas escuras em segurança e de nelas ver repousar as flores a elas lançadas por descuido ou intencionalidade. 

Será que sempre foi deste tamanho? As suas paredes parecem-me agora demasiado baixas e pouco seguras. Já não consigo olhar as suas águas e lamento não o poder fazer.

Já estou perto. Sei que estou. E eis que chego ao meu destino. 

Há grandeza na simplicidade. 

Sempre gostei dessa pedra negra que nos dias de sol me queimava as mãos. Lisa, polida, macia, uma pedra que nunca me pareceu dura.

Sobre ela um livro incompleto. Nele constam apenas dois marcos, omitindo todos os outros tão ou mais importantes que os mediaram. E os rostos imutáveis à passagem do tempo que mesmo fixos me devolvem o olhar e sorriem.

Beijo como sempre vi beijar os vossos retratos agora desbotados pelos elementos da natureza. Rezo uma prece silenciosa na certeza de que é por vós ouvida. Peço que seja atendida.

 

Tenho ainda mais uma paragem a fazer. Esta um pouco mais "difícil".

O teu rosto continua a evidenciar uma rudeza que sei que no fundo não tinhas. Uma defesa? Uma necessidade imposta pela vida que levaste? Não sei, mas tento encarar o teu olhar num misto de perdão e algo mais. Ao teu lado um olhar mais apaziguador ainda que menos "forte".

Nova prece, um pedido semelhante.

Fios de prata são eternos.

Voltarei em breve...

04
Abr19

Depois de perder...

gaivotazul

O que nos resta?

Esgotámos todas as conversas que invariavelmente nos conduziram a becos sem saída. Jogámos todas as cartas escondidas nas mangas, e voltámos para cimas todas as faces das cartas sobre a mesa.

 

O que subsiste?

Permanecem altos os muros do silêncio, os gritos mudos e as zangas caladas. Persistem os feitios moldados pelo tempo e os discernimentos por ele toldados.

 

Uma tela em preto.

Onde cabem todas as cores. Todos os sonhos e todos os pesadelos. Onde cabem todas as possibilidades.

 

Sabes, foi depois de perder que percebi.

Depois de te perder, de me perder, de nos perdermos juntos. Foi depois de perder que percebi.

 

Restamos nós. Subsistimos nós.

Um "nós" que tem tanto de individual como de coletivo.

Somos orgulhosamente uma tela em preto pois que nela deixámos os borrões que atestam a nossa existência. Os nossos fracassos e os nossos sucessos. As nossas aprendizagens, jamais os nossos erros.

 

Depois de perder...

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