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Páginas soltas...

Páginas soltas...

05
Dez18

A única palavra que precisava ser dita!

gaivotazul

A tua voz! A primeira coisa que notei foi a tua voz. Trémula, entre-cortada, baixa, como se formar as palavras te exigisse um esforço suplementar, como se estas fossem pronunciadas a ... Medo?!?

Não! Não era o medo que guiava a tua voz. Percebi-o em seguida quando reparei na tua postura e olhei no teu olhar.

Todo o teu corpo refletia a emoção de um encontro há muito aguardado.

Os teus olhos marejados olhavam com ternura quem na tua frente se sentava. As tuas mãos moldadas pela passagem do tempo procuravam afagar as que nelas seguravas. Desejando que tão cedo não se voltassem a apartar... Passou muito tempo. Tempo de mais.

Sem jeito, procuravas formular as perguntas de quem quer saber mais, de quem quer saber tudo, de quem não se importa propriamente com a resposta mas apenas com quem as emite. Perguntas atabalhoadas. Como atabalhoados deviam ser os pensamentos. 

E então, ternamente, proferiste a única palavra que verdadeiramente precisavas dizer... "Filha!"

 

E eu fiquei ali, no meu canto. Testemunha do reencontro entre um pai e uma filha. Desejando que o encanto do momento não fosse por mim quebrado. Sentindo-me grata por não ter de reencontrar quem assim me chama. Filha!

 

 

 

 

 

 

20
Nov18

Pela música. Sempre pela música!

gaivotazul

Por onde começar?
Pela música. Sempre pela música.
Percorro as pilhas de CDs mais ou menos organizados por categorias, numa lógica que a muitos pode parecer arbitrária mas que a ti te faz sentido. Coletâneas, Grandes êxitos, bandas intemporais, em inglês, música brasileira, música portuguesa. Detenho-me nesta última. Tenho uma noção do que quero ouvir. Há uma música que chama por mim.
Ligo o leitor de CDs e o amplificador a ele ligado. Pressiono o botão eject que desliza suavemente para fora. Seguro a capa de plástico nas mãos. Dentro dela um tesouro que talvez merecesse melhor guardião de que a capa em que se encontra. Com cuidado retiro o CD e coloco-o no compartimento que volta a deslizar para dentro. Carrego no play, ajeito o volume e desfruto de todos os acordes.
As notas enchem o compartimento em que me encontro. Fluem para os compartimentos adjacentes.
Corro os estores, abro as janelas, deixo que a música se propague e toque quem a queira escutar.
Canto. Não todas as melodias mas grande parte. Sinto as suas letras como minhas. Por vezes penso que os compositores são "ladrões de emoções" entram nos nossos sonhos e colocam em palavras e sons os nossos pensamentos mais íntimos e as nossas vivências. Surpreendem-me de todas as vezes que o fazem.

19
Nov18

Até que os risos me tragam de volta...

gaivotazul

No banco de trás duas vozes distintas e enérgicas contrastam com a aparente apatia que neste banco da frente se instalou.
Riem, atropelam-se, discutem e tornam a rir de algo que só eles entendem.

No lugar da frente, o silêncio e o atropelo das ideias e dos pensamentos desorganizados. Não rio, tampouco sorrio.
Gostava de poder trocar de lugar. Sentar-me no banco de trás e rir porque sim. Discutir e dizer as mais absurdas das frases e tornar a rir. Da estupidez. Da minha estupidez. Como se a mesma fosse a sabedoria que tantos buscam mas poucos alcançam.

No banco de trás exaltam-se os ânimos e eu, no banco da frente, contenho-me para que não cessem os risos nem se calem as vozes distintas e enérgicas.
Recordo que em tempos foi minha uma das vozes no banco de trás. E permaneço no banco da frente Mergulhada em recordações e numa aparente apatia até que os risos de banco de trás me tragam de volta... 

 

25
Out18

No coração do meu Outono...

gaivotazul

Flutuo sobre a relva em que caminho.  Apesar de os meus passos a calcarem, nela não deixo a minha pegada.

São passos leves os que dou. O peso que outrora carregava ficou depositado na entrada do jardim. Do lado de fora dos portões.

 

O vento sopra entre a folhagem das árvores. Oiço as gargalhadas das folhas que se soltam e que em torno de mim rodopiam. Como as fadas que habitam os nossos sonhos de menina. Formas de vida que nos fazem crer não existir.

 

Ergo o rosto ao Sol. Sinto na pele dos braços ainda desnudos o toque dos raios que me arrepia. Uma espécie de carícia. A prova irrefutável de que há mais, muito mais, do que o que a vista alcança.

 

Estendo o braço e toco o ar que me envolve num abraço delicado. Afago o seu rosto agreste que tanto me apazigua.

Não estou só. Nunca estive. Mesmo quando assim me senti...

 

Flutuo. Sorrio. Deixo do lado de fora dos portões a bagagem indesejada. Permaneço neste dar e receber, neste tocar e se deixar tocar enquanto a música ecoar. E ela vai ecoar, uma e outra vez, no coração do meu Outono...

 

24
Out18

Pelo menos para Alguém...

gaivotazul

 

Sentada nos degraus de pedra suja, negligenciada com o passar do tempo, onde a luz do sol não incidia, esperei.

Esperei pela hora em que nos reuniríamos. Em que o meu olhar se fixaria no teu e o teu abraço me envolveria.

Enquanto esperava, vi os passos apressados sem rosto que de um lado para o outro corriam. Contrariamente a mim, esses não esperavam. Antes corriam ao encontro de algo ou de alguém. 

Enquanto esperava, ouvi ao longe a urgência das sirenes. Também elas corriam contra o tempo, lado a lado com a vida ou a morte...     

Reparei então numa pequena inscrição na pedra gravada. Uma inscrição que parou o tempo. A sua nitidez não foi ainda alterada. O seu significado, espero, imutável.

23/02/2017

 

Esta é a data. Importante. Memorável. Digna de registo. Pelo menos para alguém...

 

 

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24
Out18

Vamos!

gaivotazul

Vamos deixar correr as palavras, uma a uma, lentamente; em cadência ritmada, cada vez mais veloz; num ritmo desenfreado como rio que galga as margens e beija os campos em redor. 

Vamos deixar correr as palavras na direção que lhes aprouver. Sem restrições, sem condições.

Deixar que falem dos momentos felizes, dos instantes de loucura, da solidão, do desassossego, da esperança fugaz que se quer duradoira.

 

Vamos deixar correr a tinta impressa com a nossa digital. Única, confusa, sem nexo, eloquente.

Vamos deixar correr a tinta contida em depósitos que a restringem. Deixar que transborde e borre as páginas imaculadas e sem cor.

 

Vamos repetir o gesto uma e outra vez até à exaustão. Vamos deixar que se reinvente a cada nova execução. Vamos repetir o gesto de que nosso pouco tem de tanto que foi repetido, apropriado e expropriado. 

 

Vamos. Vamos seguir em frente sem pensar no que virá depois. Que importa o sentido? Sentido esse que não é por nós atribuído e que se sujeita a julgamentos e interpretações. Que importa a direção? Direção essa que muda consoante as mãos que tomam as rédeas.

 

Vamos abraçar a liberdade do desconhecido. Do que ainda não foi validado, testemunhado, confirmado. 

Vamos abraçar a liberdade de que tão facilmente abdicamos.

 

Vamos ser como o filme mudo, a preto e branco projetado na tela. Vamos escutar as vozes inaudíveis a quem somente vê sem sentir. Vamos atribuir as cores invisíveis a quem somente chama a si o papel de observador e não se deixa envolver.

 

Vamos. Vamos ser a palavra escrita a tinta permanente que borra sem medo as margens do nosso caderno. Vamos ser o gesto que nos define mas não nos limita. Vamos reiventar-nos a cada instante. Ou permanecer imutáveis no nosso jeito inconstante de ser. 

 

Vamos deixar de procurar fazer sentido. O sentido é sobrevalorizado. Vamos antes sentir. Atribuir diferentes significados ou persistir no mesmo. No fim... será só nosso e de mais ninguém.

 

 

 

 

 

 

27
Set18

Nunca te conheci... Nunca te conhecerei!

gaivotazul

Nunca te conheci. Sabia o teu nome, quem eras mas não quem eras... Aliás, duvido que mesmo os que te conhecem saibam quem és. 

Incompreendido! Sempre o foste. Pelo menos por muitos. Mesmo pelos que te eram mais chegados. Por outro lado, também pouco esforço empregaste para te fazeres compreender.

Era entre as paredes, por ti pintadas de preto, do teu quarto que encontravas o teu lugar no mundo. Nelas colocavas todas as cores como se fossem folha em branco.

 

Nesse teu mundo, a sós, tendo-te somente a ti por companhia, embrenhaste-te cada vez mais fundo na descoberta de quem eras.

A pouco e pouco, expandiste as paredes negras do teu quarto. Foste ousando mostrar quem eras sem te preocupares a quem o mostravas. Despiste-te de receios (in)fundados e expuseste-te ao olhar critico dos outros. "Que critiquem" - pensarás... Positivas ou negativas, construtivas ou destrutivas quem as tece apenas hipotetisa sobre quem possas ser. Continuas sem te dar a conhecer.

Hoje, na terra que te viu nascer, partes da tua obra estão expostas para escrutínio público. Tornaste-te o que muitos apelidam de "artista autodidata" - que a ti nunca ninguém disse por onde seguir e o que ou como fazer. Artista! O termo para nomear quem nunca conheci. Quem nunca saberei quem é por muitas biografias que porventura se venham a escrever. És assim como as paredes por ti pintadas de preto. Um buraco sem fim onde cabe tudo o que possamos pensar. 

 

Ao observar as tuas telas expostas, reconheço o talento e a arte. Visualizo um egocentrismo que imagino ser real. Interpreto um sofrimento interno com alguma ideação suicida. Uma atração pelos mistérios da vida e da morte. Que a aceitação de uma depende do reconhecimento da outra. Uma aparente leviandade com que retratas a segunda. Talvez a tua forma de valorizar a primeira.

 

Como vês, sei o teu nome e quem eras. Jamais saberei quem és. Como tal, nunca te conhecerei. 

 

 

20
Set18

...

gaivotazul

Quero escrever. Para o fazer tenho primeiro de silenciar os meus pensamentos. No mínimo conferir-lhe alguma ordem. Permitir que se façam ouvir. Um de cada vez.

Coloco a música a tocar. Enquanto os seus acordes enchem o ar a mente começa lentamente a serenar-se. Como o corpo cansado que se aquieta e acomoda no colchão. 

Divago. Permito que as minhas emoções naveguem um pouco à deriva. Não me sinto preparada para assumir o comando do leme. Não ainda. Confio que encontrarão o caminho a seguir. Permito que por agora fluam por onde lhes aprouver. Ainda que não as consiga decifrar. São minhas. Com todas as suas variantes. Capazes de passar de um extremo ao outro num segundo. Da calma à fúria. Da passividade ao ataque. Mais difícil o inverso.

Aquieta-se a mente ao ponto de quase se sentir despojada de pensamentos. 

 

A melodia mudou. É agora expressa pelas cordas de uma guitarra que segreda baixinho a sua história. Ou pelo menos a história que a alguém ouviu contar. Prende toda a tua atenção. Termina rápido de mais deixando-te com a insatisfação resultante. Pedes-lhe mais. Imploras pela sua companhia. Pela sua voz. Não importa o que te diga. Queres sentir mais do que entender. O coração vê para lá das palavras que não sabes dizer. 

A súbita vontade de chorar. A lágrima reprimida. O sentimento refreado. O pensamento contido.

Pudéssemos nós ser as notas cantadas nas cordas daquela guitarra. 

Silenciou-se. A guitarra, e a minha voz interior...

 

17
Set18

Onde nos podemos sempre encontrar...

gaivotazul

Ontem sonhei contigo. Com as tuas palavras. As mesmas palavras que li pela primeira vez faz tempo. Dez anos volvidos tornei a rele-las...

 

Ontem sonhei contigo. Connosco. Tu não eras tu e eu não era eu mas éramos nós. Ali. Transpostos da página de um livro, de uma história ficcional para a realidade do meu sonho.

Na realidade do meu sonho, como nas páginas do teu livro, conversámos noite fora sob um céu estrelado. 

No aconchego de um abraço, o nosso, desfiámos sonhos em palavras soltas 

Não olhámos ao tempo que passou por nós sem dele darmos conta.

Estávamos num deserto povoado pelos nossos sonhos. Tínhamos-nos um ao outro. Tínhamos tudo. De deserto só mesmo a paisagem que de resto nos pertencia.

 

Ontem sonhei contigo. Com as tuas palavras.

Hoje, vou pegar de novo nelas. Talvez permaneças comigo quando o livro se fechar e a luz se apagar. Nos meus sonhos. Onde nos podemos sempre encontrar...

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Hoje, 

13
Set18

Não escrevo...

gaivotazul

Não escrevo. Não porque não tenha sobre o que escrever, mas precisamente porque tenho. No momento em que tudo o que escrevo sem escrever se materializar, não haverá volta a dar. Não haverá como negar. Os eventos, os pensamentos e os sentimentos a eles associados.

Assim sendo, não escrevo. 

Não escrevo o que escrevo sem escrever. Para que não restem evidências físicas. Para que os meus olhos não vejam tatuado numa folha de papel os pensamentos que tenho e os sentimentos que não tenho.

Estou em fuga. Sigo em frente sem olhar para trás. As emoções logo ali, quase a alcançar-me. Corro. Fujo. Sou fugitiva de mim. Não sei por quanto tempo mais.

Não escrevo, o tanto que tenho em mim por escrever...

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