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Páginas soltas...

Páginas soltas...

14
Ago18

Aqui onde estou...

gaivotazul

Aqui onde estou, há ainda muito por fazer mas tenho para onde ir.

Divido atenções, olho o relógio, esqueço o que ia dizer, lembro o que tenho de fazer.

 

Aqui onde estou, requerem a minha presença. Para onde tenho de ir, reclamam a minha ausência.

Olho o relógio, concentro atenções. Digo o que tenho a dizer, adio o que ia fazer.

 

Já não estou. Nem aqui nem lá. Em ambos os lados há que fazer. Estou temporariamente ausente. E tudo se faz. Mesmo sem mim. 

 

Chego.

Aqui onde estou, há ainda muito por fazer. Já não tenho para onde ir. 

Estou presente e se alguém reclama a minha ausência, esse alguém sou eu. Mas, aqui onde estou, há ainda muito por fazer...

 

 

 

14
Ago18

Vislumbre de um miúdo...

gaivotazul

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Qual miúdo a quem é dada a oportunidade, corres solto e descalço pelos campos de grama, areia ou terra batida.

No teu rosto escorrem gotas de suor que te refrescam mas que não refreiam o teu entusiasmo.

Destacas-te dos demais pelo teu tamanho mas principalmente pelo miúdo que no teu corpo de adulto habita. 

Quando corres, quando na bola chutas, quando gritas e esbracejas, és o miúdo que em tempos foste e a quem não foi dada a oportunidade.

Agárras-la agora. Com unhas, dentes, esfoladelas e arranhões. Com tudo a que tens direito.

És de novo o miúdo a quem é dada a oportunidade. E ninguém te pára. 

 

 

13
Ago18

...

gaivotazul

Não tenho escrito. Pelo menos não em suporte papel ou informático.

Escasseia o tempo. Tempo esse em que me desdobro para a todos chegar. Tento... Não chego. E então sobejam-me os textos que não chego a escrever. 

 

Não tenho escrito e ainda assim todos os dias escrevo. Escrevo em sonhos e em pensamentos. Escrevo a dormir o que não escrevo acordada. 

Escrevo sobre tudo e sobre nada. 

 

Escasseia a lucidez, sobeja-me o cansaço.

 

Apago a luz, fecho os olhos e (re)começo a escrever...

 

 

01
Ago18

Tu, eu e todo o tempo do mundo...

gaivotazul

 

Esta semana comecei a ler um novo livro. Um livro escolhido por ti. Um livro que provavelmente acabarei de ler ainda antes da semana chegar ao fim.       

 

Também tu já sabes e gostas de ler. Em voz alta. Conferindo realidade ao imaginário do autor enquanto lês.

Leste a crítica da contra capa segundo a qual esta era uma história que fazia rir e chorar em cada página, e de algum modo sentiste que era apropriada para mim. 

 

Quando finalmente concluí o livro que me acompanhava havia algum tempo, acercaste-te de mim com entusiasmo e não sossegaste enquanto não abri o "teu" livro. 

Ainda não concluíra a primeira página já tu perguntavas numa alegre inquietude difícil de conter "Escolhi bem?"; " Já estás a rir?".

Não te podia dar a informação que não tinha mas não te queria desencorajar. Prossegui a leitura prometendo que depois te responderia.  

 

Durante alguns minutos ainda lutaste contra o cansaço. Derrotada por ele adormeceste encostada a mim.

   

Ainda é cedo para analisar as emoções que em mim o livro desperta. Não chorei, mas também ainda  não ri. Apenas dobrei os cantos das folhas nas quais me demorei em determinada reflexão. Quero a elas voltar mais tarde. Gosto de o fazer. 

Uma coisa é certa. Este livro foi-me por ti oferecido.  Só por isso, suscetível de causar a lágrima presa, não de tristeza mas de alegria, e de me fazer sorrir. E enquanto o estiver a ler, contigo deitada a meu lado, serei só "Tu, Eu e Todo o Tempo do Mundo".

   

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28
Jul18

...

gaivotazul

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Disseste que quem canta reza duas vezes. Deus sabe o quanto preciso de rezar, o quanto preciso cantar. Mantemos as nossas preces privadas, fazemos as nossas orações em silêncio. E no entanto preciso gritar com quanta força me restar. Preciso cantar a plenos pulmões toda a minha emoção. Libertar todas as orações ditas a medo e sem convicção.
Preciso de me encontrar com Deus. Através da música se for esse o caminho. Disseste que seria. Poderá não ser o único mas poderá ser o meu.  Sentada neste banco, ao ouvir as tuas palavras, sinto crescer em mim a voz que diz:

"Levanta-te, ergue a tua voz, não olhes ao teu redor, vê com o coração e canta. Canta cada palavra com a intensidade que merece. Como se não houvesse amanhã e nada ficasse por dizer. Despoja-te de tudo o que te consome, do que obscurece o teu sorriso e ensombra o teu coração. Esta é a minha casa, e nela os fantasmas são vencidos. Concentra-te na luz que pela cúpula entra e que ilumina a nave desta catedral. A passadeira de pedra está estendida para ti. Para que os teus pés saibam por onde caminhar. Sem medo. Confiante." 

 
Ouvi o que disseste. Que quem canta reza duas vezes. Se não te importares, agora vou rezar...

26
Jul18

A casa dos meus avós...

gaivotazul

Ao cimo da ladeira sem saída, em tempos, de areia, fica a última casa da rua. No primeiro andar da mesma, a casa dos meus avós.

Entro pela porta de madeira de verde pintada. Sigo pelo corredor de tacos de madeira encerado. Ao fundo do mesmo, um aparador em pedra esculpida com um espelho oval incorporado dá-me as boas vindas. Faço a perpendicular. Do meu lado esquerdo a cozinha. Pequena e iluminada. Nela recordo uma mesa de tampo laranja e uma pia de pedra sob a janela. Ao lado da pia, uma porta com umas escadas que dão acesso a um quintal partilhado e a uma pequena arrecadação a que chamamos "a cabana". Ao lado da cozinha um dos quartos.  Nele uma cama de casal encostada à parede e sobre a cabeceira um enorme rosário de madeira. (Não sei o que dele foi feito). Ao lado da cama um pesado roupeiro com um espelho na porta do meio. Haverá seguramente uma cómoda mas só sei que aos pés da cama está uma pequena mesa de cabeceira e sobre esta uma pequena boneca de olhos grande e cabelo em pé e um brinquedo, um tomate de borracha com olhos e boca. Ao descrevê-los sei que não faz sentido, e não posso garantir que de facto existissem mas recordo-me  da sua existência. Vejo-me a dormir no chão, numa cama improvisada entre  a cama e o roupeiro, numa das noites em que com os meus tios tive que ficar. De facto, recordo-me que não dormi. Apenas fechei os olhos até que a madrugada chegou e com a manhã os meus pais. 

Do lado oposto, a sala. Nela, um sofá de napa verde escuro, uma mesa de refeições e um louçeiro com portas de vidro com a baixela da família. Por cima da mesma, a coleção de latas do meu primo. São tantas e tão bonitas. Um verdadeiro tesouro para um adolescente e para a sua prima ainda criança. A sala comunica com o outro quarto da casa. O quarto do meu avô. Nele a cama centrada e sob a janela uma cadeira. A cadeira do meu avô. Onde ele se senta e olha a rua e para lá da rua enquanto fuma o seu cigarro.

Estranho. Nada recordo da casa de banho da casa...

A minha mãe cresceu nesta casa. Dela saiu aos 20 anos quando se casou. E no entanto nada há nesta casa que diga que nela viveu...

A minha avó educou e criou as suas filhas nesta casa. Consigo imaginá-la a fazer uma omelete de bacalhau (memória criada a partir das histórias que a minha mãe  me contava) ou junto à pia de pedra da cozinha. Contudo, julgo nada haver nesta casa que ateste a sua passagem por ela. Partiu bem antes de eu nascer. Continuou a zelar por nós como sempre fez. Tornou-se o nosso anjo da guarda. 

 

Ao cimo da ladeira hoje alcatroada, ainda que sem saída, já é possível inverter a marcha com facilidade.

No primeiro andar da ultima casa da rua, a porta de madeira e os caixilhos das janelas deram lugar ao alumínio. Desconheço quem lá more. Para mim será sempre a casa dos meus avós. do meu avô. Uma casa que é muito mais que as suas paredes e os parcos móveis do seu interior. Uma casa que é feita das  memórias de quem nela viveu. Vou pedir a minha mãe que me conte e torne a contar as suas histórias. Para que não sejam esquecidas. Para que perdurem no tempo através das memórias  que não sendo minhas serão também dos meus filhos. (Assim também eu as consiga contar.) 

 

26
Jul18

Ao fechar do livro, não se acaba uma história...

gaivotazul

"E saí para sempre das vidas delas, transformando-me numa das últimas linhas da sua história."

 

Leio a frase devagar, retirando dela todo o seu sentido. Quando a terminar de ler, sei que terminará a história que nos foi contada, não por uma mas por várias personagens numa narrativa complementar. Como complementares somos uns na relação com os outros. O mundo é bem mais pequeno do que se possa pensar, e se de facto for redondo voltaremos sempre ao ponto de onde partimos. 

 

Durante semanas viajei nas páginas deste livro. Uma viagem tanto física quanto emocional. Percorri países e fronteiras que não conheci e que nunca atravessei. Vi-me em cenários de guerra e desolação onde a esperança encontrou forma de irromper. Onde a distância jamais conseguiu quebrar os laços. De sangue mas principalmente de afeto. Vislumbrando o fim da última página, encerro a certeza de que não será o fim da história e que a este mesmo livro voltarei em breve, e por mais que uma vez. Como se ao fazê-lo conseguisse entender o que não percebi, ver o que não vi, escutar o que não ouvi... A vida de alguém não termina simplesmente porque sobre ela se deixou de escrever. A Vida de alguém não se esgota nas linhas que foram escritas. Tão ou mais importante será o que ficou por ler que ninguém quis escrever. Sei que ao fechar do livro, não se acaba uma história.

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19
Jul18

"As pessoas deviam dançar mais!"

gaivotazul

Aguardo. (Parece que estamos sempre a aguardar por algo ou alguém).

Enquanto aguardo olho pelo vidro e sorrio. O meu olhar deteve-se quando te viu dançar.

Na companhia de duas colegas, gingas desengonçado ao ritmo de uma música que só tu ouves e que eu só posso imaginar.

Páras por breves instantes para logo retomares o teu bambear de ancas.

Continuo a sorrir e penso "as pessoas deviam dançar mais".

Sabes que mais, não vou mais aguardar. Vou seguir o teu exemplo e vou dançar. E vou sorrir sabendo que, como tu, farei outros sorrir e, quem sabe, levá-los-ei a dançar. 

 

 

18
Jul18

Afinal talvez deva...

gaivotazul

Talvez não devesse. E na maioria das vezes digo a mim mesma que me vou manter calada. Que serei mera espectadora da cena que a seguir se irá desenrolar. Mas uma vez confrontada com a situação, uma vez chegada ao local, não me consigo conter e começo a falar. Tomo as rédeas, assumo o controlo e ajusto o discurso. 

Talvez não devesse, mas há um limite para as barbaridades que se conseguem ouvir. Como podem os comandantes e capitães precipitar, deliberamente ou por incompetência, as suas embarcações contra as rochas?     

Nestas alturas sei que, por muito que não queira, nasci para liderar. E não quero. Mas é inerente ao meu ser. Tenho em mim as competências necessárias para o fazer. Por outro lado, quando nem do meu próprio barco assumo os comandos como poderei dizer a outros como navegar?

Talvez não devesse. Repito para mim que farei somente o trabalho que me compete. Descuido-me. Apanho no ar uma frase que antecede uma ação com a qual não concordo. Que sei estar incorreta. E não me contenho. Puxo a mim a responsabilidade de fazer mais e melhor. De fazer bem. Sobrecarrego-me e inevitavelmente sobreponho-me.

Talvez não devesse. Mas como não agir quando sei diferente. 

Concluo agora que talvez não devesse. Que talvez não devesse questionar. Concluo agora que talvez devesse. Talvez devesse assumir quem sou, como sou.  

Se sei fazer que faça. Se sei falar que  fale. Não pelos outros mas por mim. Para que não me diminua nem me demita das minhas capacidades ainda que com elas venham as responsabilidades. Por que essas sempre vêm. Quer queiramos quer não.

Afinal talvez deva...

 

18
Jul18

Egoísmo é preciso...

gaivotazul

No tempo que me resta queria ter-te por companhia. Num ato de egoísmo queria usufruir desse tempo sem que há nossa volta um atropelo de vozes ocorresse.

Dificultam ouvir-te. Dificultam sentir-te.

Atos de egoísmo são por vezes necessarios. Só sabendo onde estou poderei dar a outros orientações. Só sabendo quem sou poderei ajudar outros a descobrirem-se.

Por egoísmo, pego em ti e busco um canto para nós.

Encontro-me. Sinto-te. Demoro-me nos instantes finais que nos sobram.

Parto. E levo-te comigo.

Ainda que outros não te vejam ou sintam. Eu sei. Eu sinto.

Fui egoista. Sou egoista. Temporariamente. Mas apenas para que possa ser permanentemente altruísta. 

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