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Páginas soltas...

Páginas soltas...

13
Mar22

Calou-se…

gaivotazul

Calou-se a voz lá no fundo. Aquela que me fazia cantar. A que me fazia sonhar e sorrir. Não ter pressa de partir e só desejar ficar.

Calou-se a voz lá no fundo. A que me fazia acreditar. Jamais parar de lutar. Que me impulsionava a prosseguir e a nunca desistir.

Calou-se a voz lá no fundo. A que me cantava canções de embalar. A que velava por mim em noites de luar. A que me aconchegava e, em sonhos, as mais ternas palavras segredava. 

Calou-se a voz lá no fundo. Aquela que escolheste ignorar. Que tanto tinha por te contar. Que na noite escura te sabia guiar, e que à luz do dia te fazia vibrar.

Calou-se... não mais a escutarás. Em seu lugar o eco do silêncio, o vazio, a Saudade...

Calou-se a voz lá no fundo. A que um dia construiu pontes, encurtou distâncias, estreitou ligações. A que derrubou muros e das lágrimas fez Esperança .

Calou-se A que um dia foi tua sem o ser. Que emprestou aos teus gestos o som para que assim te fizesses ouvir.

A que nunca foi verdadeiramente minha mas da qual me servi. Que me permitiu encenar e ensaiar os papéis que nesta vida desempenhei. 

Calou-se... 

 

 

 

12
Fev22

...

gaivotazul

Vou tentar. Sem pressa. Sem pensar.

Vou deixar fluir. Ver onde vai dar. Deixar seguir.

Aleatoriamente pressionar as teclas dando forma às palavras que no pensamento se formam.

Vazias de conteúdo, talvez! Mas cheias de uma intecionalidade ignorada. Aprisionadas pelo tempo, ou pela falta deste. Um baixar de braços, um atirar o pano ao chão prematuramente.

Tudo tem o seu próprio ritmo, um tempo e um espaço para acontecer. Para deixar nascer, crescer e até mesmo... morrer. E depois há o renascer com renovada vontade e crença num propósito maior que nós. Uma esperança que nos abraça por inteiro, avassaladora, esmagadora, que nos transcende e que transborda. Como a onda que galga os muros de betão, transpõe limites que não reconhece e se espraia em tudo o que reclama como seu. Como o balão que se solta da mão que o prendia e se deixa conduzir cegamente pela corrente de ar que o transporta para o então desconhecido, e todo um novo mundo de possibilidades se abre.

Bate-lhe o sol no rosto outrora fechado à luz. Silenciam-se as vozes que ensurdeciam o mundo em volta. É hora do reencontro. Do reencontro consigo e com os outros. Os outros que fazem de si quem é. Alguém disposto a tentar. Sem pressa. Sem pensar.

 

 

01
Nov21

The October Break | dias 11 a 20

gaivotazul

Ontem demorei-me na saudade e adormeci na lembrança do teu abraço. Hoje acordei revigorada pelas promessas que jurei cumprir. 

A luz da manhã irrompeu pelo quarto e com ela um desejo. Um desejo que nos últimos tempo estava adormecido mas que esta manhã parecer ter ressurgido com novo fulgor. A culpa é tua, devo acrescentar. Foste tu quem me fez prometer e foste tu quem em sonhos mo relembrou. 

Levantei-me confiante, diria até que feliz! Vesti as calças de ganga já desbotadas e a velha camisola de lã cru a quem o borboto apenas acrescenta carácter, calcei as botas de borracha e desci até ao jardim. Pode ser impressão minha mas diria que o odor que se desprende das rosas é esta manhã mais inebriante. Sei que te sentirias orgulhoso dos nossos canteiros. Tinhas razão em teimar na disposição aleatória de sementes. A vida é cheia de surpresas. Nada é exatamente como se espera ou projeta. E ainda assim, no meio do caos, por vezes tudo faz sentido.

Com cuidado, cortei algumas das nossas flores e com elas compus um bouquet que embrulhei num pouco de papel pardo castanho, atado com uma fita de ráfia.

Regressei a casa, passei a escova pelo cabelo, que prendi num rabo de cavalo desalinhado (como eu), e troquei as botas por uns ténis. Ao pegar nas chaves de casa, olhei-te no retrato emoldurado e senti o teu sorriso aprovador. Já adiara por demasiado tempo este encontro...

Foi bom ter estado com a tua mãe. Estranho mas reconfortante. Derramámos algumas lágrimas mas os sorrisos suplantaram-nas e houve até um momento em que  a nossa gargalhada ecoou por todo o salão. Estou certa de que a ouviste, já que foste tu o visado. Falávamos de como te demoravas ao ler a ementa e quando chegava a hora de efetuar o pedido dizias "eu desejo comer (...) mas vou antes pedir (...)" Não sei porquê nunca pedias o que efetivamente desejavas muito embora tu replicasses que era porque "enquanto tivermos desejos (sonhos) teremos sempre uma razão para um novo amanhã". 
Depois do almoço deambulamos sem rumo certo pelas ruas da vila. Uma montra em particular captou a nossa atenção. Toda ela espelhava a dedicação do seu proprietário que durante anos colecionara artigos vintage.  Entrar na sua loja foi como fazer uma viagem no tempo. Não resisti a trazer um LP de vinil, parte de uma coletânea que iniciámos ainda em adolescentes. "O cão e a raposa" da Walt Disney. Uma das nossas histórias de eleição porque nunca nos deixou esquecer a importância de cuidarmos da nossa criança interior e de preservarmos a nossa ingenuidade (leia-se crença na humanidade) e integridade.

Despedi-me da tua mãe com um "até breve" e regressei a casa, para junto de ti. Queria ouvir o álbum na tua companhia... Preparei um chá de laranja. O meu aroma preferido de outono a impregnar o ar.

Sentei-me no chão, junto ao gira-discos, e deixei que as faixas do álbum, umas a seguir às outras, qual tesouras acabadas de amolar, cortassem qualquer ligação ao presente e parassem as horas do tempo. Junto a mim, a tua camisa. Ainda consigo sentir nas suas fibras o odor amadeirado característico do teu perfume...

A história terminou mas o gira-discos continua a rodar recordando-me que a Vida também prossegue para lá destas paredes, e dentro delas. Penso em ti e sorrio. De nós, e em nós, não sobrou nem um remorso. Brigávamos como cão e gato, dizíamos tudo o que pensávamos e sentíamos, para no fim rebolarmos e envolvermos-nos como a rebentação da onda na areia num abraço apertado.

Um abraço que ora gritava ora sussurrava um só sentimento. Amor!

E assim iniciávamos um novo jogo tão nosso. "Eu amo... beber chocolate quente; o cheiro do mar que se cola à pele; (...); a nossa família; a Ti!"

 

Texto no âmbito do desafio The october break 2021

palavras: um desejo; rosas; eu desejo comer; vintage; raposa; aroma favorito; tesouras; um remorso; amadeirado; eu amo

10
Out21

The October Break 2021 | dias 1 a 10

gaivotazul

Quanto tempo passou? Não sei dizer... Talvez só tenham passado cinco minutos desde a última vez que olhei para o relógio, mas pode igualmente ter passado duas horas ou mais.

Continuo aqui, no mesmo corredor em que me deixaste. De olhos pregados na janela, dela nada enxergo a não ser as memórias que me assolam e as dúvidas que teimam em não me abandonar.

É outubro! De dia para dia sinto o dia encurtar. Talvez uma analogia com a linha da vida que se há-de findar. A noite que lá fora se instala trouxe consigo um vento norte que me gela.

Nas mãos seguro a camisola de malha azul turquesa que me ofereceste. Dizias que fazia sobressair o negro dos meus cabelos. Se me visses hoje talvez não me reconhecesses... Seja como for, não me arrisco a vesti-la. Receio que se mexer um músculo que seja, se desviar o olhar da janela por uma fração de segundos, não te veja regressar. 
Quando partiste, levaste contigo a chave do meu coração que não voltou a bater com a mesma intensidade. Partiste! Não moras mais neste lugar onde eu vivo. Ou sobrevivo.... Todos os dias espero ver-te regressar por essa estrada de terra batida. Por vezes parece-me ouvir o som da campainha da tua bicicleta. Vejo-te pedalar com toda a energia e de sorriso rasgado. Atiras a bicicleta ao chão e corres na minha direção erguendo-me no ar.

Pura ilusão, bem sei! Partidas da minha cabeça a quem nunca faltou a imaginação alimentada por dezenas, se não centenas, de romances. 
Também tu gostavas de romance. Dizias que o melhor de todos ainda não havia sido escrito. Que o viveríamos nós para depois o contar. O Conde de Monte Cristo figurava nas nossas preferências. Era mesmo o teu favorito... Quando apartados contávamos os dias para nos reencontrarmos e renascermos num interminável abraço. 
Continuo de olhos postos na janela mas dela nada enxergo. Digo que o problema é do vidro baço e riscado e numa fúria repentina tento desesperadamente devolver-lhe a transparência... Tola! A culpa não é do vidro. São os meus olhos que nada enxergam. O sal das lágrimas que deles se desprendem é que nada mais deixam ver...

Sinto-me exausta! Reler as tuas palavras traz-me sempre um misto de alegria e dor. Com todo o cuidado volto a dobrar a folha daquela que foi uma das tuas últimas cartas. Falavas-me da espera por dias melhores, da esperança que a pouco e pouco te abandonava, da minha ausência...

Coloco-a junto das outras e devagar baixo a tampa da caixa de madeira, guardiã das nossas memórias. Ao fazê-lo, um breve odor a alfazema desprende-se das folhas e envolve-me. És tu quem me aconchega! Sabes?, tinhas razão! Vivemos o nosso romance. São as nossas cartas quem o atestam. O nosso testemunho que perdurará no tempo e para além do tempo...  

 

Texto no âmbito do desafio The october break 2021 

26
Set21

...

gaivotazul

Haja o que houver! dizias tu. E tanto que já houve e nada mudou e tudo se alterou.

Haja o que houver! acreditava eu. E tanto se perdeu e tudo desmoronou.

Haja o que houver! repetimos.

E a esperança renasce alimentando o sonho...

 

 

25
Set21

...

gaivotazul

Que o teu peito aberto seja o meu leito e teus braços meu aconchego.

Escuda-me do tempo que passa e da noite que corre lá fora.

Deixa-me morar no teu abraço e em teus braços demorar.

Segreda-me o que a alma sabe e o corpo esquece. Relembra-me uma e outra vez para que a memória implantada nunca seja suplantada.

Deixa-me embrenhar noite dentro em cheiros e sons tão meus, tão teus, tão nossos.

E essas mãos ásperas que me embalam e derrubam qualquer defesa são a minha rendição.

Que durante a noite sejas o sentinela que nunca dorme. O meu vigia, o meu guarda e anjo.

Deixa-me em teu peito repousar até a aurora chegar. Estou cansada de lutar...

23
Ago21

Estrelas pintadas...

gaivotazul

Ao ler a frase, não resistira a sublinhá-la. De certo modo, parecia-lhe conter uma mensagem demasiado importante para ser lida em uma só passagem rápida, sem tempo de assimilação. Assim, revirara a atulhada gaveta superior da mesa de cabeceira, em busca de um lápis de carvão. Uma esferográfica, a caixinha dos primeiros dentes de leite, o estojo vazio dos óculos-de-sol, botões soltos, papéis e papelinhos mais ou menos dobrados, um "Quantos Queres", marcadores de outros livros lidos... deveria estar por ali algum lápis...recordava-se de o ter atirado para lá... Na ausência deste, teria de se contentar em dobrar o canto superior da página, como tantas vezes já fizera, para a ela voltar oportunamente. Se não se esquecesse...

De lápis na mão, leu e releu a frase, uma e outra vez, acabando por, cuidadosamente, sublinhar aquelas palavras. Sabia que, inevitavelmente, voltaria a elas mais tarde.

Agora, enquanto as relia uma vez mais, deu por si a olhar em volta. Refletiu por alguns instantes, e não pode deixar de formular um pensamento... Estaria também ela a viver numa espécie de carrocel no qual os espelhos, luzes e gravuras nos iludem a cada volta, mergulhando em ilusões, tornando a realidade um conceito cada vez mais abstrato?...

 

Na prateleira da escrevaninha, a fotografia emoldurada de um Nascer-do-Sol capturado tantos anos antes pela objetiva de uma máquina Kodak descartável, transportava-a de volta àquela planície alentejana e àquela noite gelada passada em claro que antecedera aquele momento mágico imortalizado no retrato.  Enquanto o observava pensava...Quando fora a última vez que acordara a tempo de ver o Sol nascer? Qual fora a última vez que decidira enfrentar o ar gélido da noite para respirar as suas estrelas e contemplar os cheiros e sons que invariavelmente a acompanham?

De tempos a tempos dizia para si que o iria fazer. O cansaço, a preguiça ou desalento levavam-lhe sempre a melhor. Talvez outro dia!

 

动漫男生头像 星空

"O interior da tenda tinha estrelas pintadas. Parecia-lhe coisa de gente da cidade, pois não tinham percebido que, se desmontassem a tenda, podiam ver estrelas a sério".

Jodi Picoult, Lobo Solitário

04
Ago21

"Contratempo" *

gaivotazul

Troquei passos com o tempo e nele tropecei

Eu que com cuidado caminhava, nem sei onde errei.

Na cautela fui imprudente, e o instinto ignorei.

Jazo agora no chão das incertezas, mas levantar-me-ei.

 

O compasso abrandou, o som não se fazia notar.

Quando o passo troquei, não tinha em que(m) me apoiar.

Seguir por linhas direitas, por segurança os atalhos evitar

Ilusão de um coração que sobre o arame se faz avançar.

 

"Pequenos contratempos não te irão demover,

Nasceste para Voar, uma e outra vez te reerguer".

Assim me incentivavas, com inabalável convicção.

Eras a voz da razão, uma luz na escuridão.

 

Por ti, por mim, por nós, recomeçarei uma e outra vez.

Farei do tempo um amigo que caminhe lado a lado.

Se a vida é um palco, uma encenação ou coreografia talvez,

Atuarei com precisão, num eterno sonho inacabado. 

 

Bailarina em palco de vidro.jpg

fotografia de Madeira viva: Bailarina em palco de vidro (2011) Dancer in glass stage

* Para M

18
Jun21

Desafio de escrita 3.0

gaivotazul

Naquele dia, as horas haviam custado mais a passar. O calor que se fazia sentir toldava as ideias. O sal das gotas de suor que se acumulavam nas pálpebras, misturavam-se com o sal das lágrimas que a custo retinha fazendo arder os olhos.

Determinada em não ceder, em conservar o controlo sobre os seus atos, sobre as suas escolhas, tentara manter o foco nas pequenas tarefas que se revelavam impossíveis.

Bastara uma simples mensagem para um passado que julgara esquecido se fazer presente.

Como numa tempestade de verão, os sentimentos haviam rasgado todo o discernimento e deitado por terra toda a réstia de racionalidade. Sucumbira à intensidade dos mesmos. Sentimentos que se haviam revelado tão avassaladores como breves. Dissiparam antes mesmo de os conseguir assimilar.

Enquanto tentava costurar os retalhos de uma vida, fragmentos de eventos que ainda conservava na memória, pensava nas parcas palavras que recebera. “Sou eu.”

Não fora preciso mais. Sabia a quem pertenciam. A raiva e a mágoa misturando-se com algo maior, muito maior, do que a sua vontade.

O seu coração estava preso. Fios de prata uniam-no a outro. Tesoura alguma poderia cortar esse laço.

Sentindo nas têmporas o sangue pulsar, atirou alguns pertences para dentro de um saco e, fechando a porta atrás de si, silenciou as vozes que em si ecoavam.

Agora, sentada junto às margens do rio que anos antes testemunhara A Promessa, pensava na ironia de lutar contra o Destino e de acreditar no Livre Arbítrio. Era apenas um peão que aguardava pela próxima jogada na esperança de que desta vez a razão e a emoção pudessem caminhar de mãos dadas e a Vida se cumprisse.

Todd Williams

Todd A. Williams

Texto escrito no âmbito deste desafio. Partindo da premissa "Caramba, quase que conseguia!", o texto deveria incluir as palavras preso, sangue, saco e tesoura.

 

16
Jun21

A busca...

gaivotazul

Olho a chama trémula da lanterna que na mão seguro.

A sua frágil luz dança ao sabor do vento.

Vacila mas não se extingue, não demove o meu intento.

E avanço na escuridão num passo inseguro. 

 

Neste imenso labirinto não me consigo encontrar.

Busco pelo caminho as (tuas) pegadas a seguir.

Este meu coração já não sabe por onde ir.

Onde está o meu porto de abrigo, um cais onde aportar.

 

Entre as estrelas procuro teu olhar para me guiar.

Disseste que estarias sempre aqui para me apoiar.

Crente, acreditei! Deixei-me por ti levar...

 

Preciso de respostas mas por onde começar.

Num mar de interrogações sinto-me naufragar.

Sem bússola ou farol procuro a Estrela Polar.

O meu norte e a minha sorte que tardam em chegar.

 

Em breve será dia mas por ora tenho o Luar por companhia.

Um alento neste deserto, uma esperança fugidia.

Como um abraço que me conforta e embala 

Uma voz, a tua, que me fala..

 

E as respostas hão-de chegar.

the-search.jpg

The Search, Todd A. Williams 

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