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Páginas soltas...

Páginas soltas...

25
Fev21

Cor-de-laranja...

gaivotazul

 

Será que arrisco? Arrisco pois! Onde está a audácia da menina que orgulhosamente se vestia de fogo?

Ainda conservo a nítida imagem de meia dúzia de adolescentes, nos degraus do liceu sentados. Falavam de tudo e sobre o nada que em 10 minutos de intervalo cabia.

Debatiam com um misto de seriedade e arrogância os assuntos da atualidade que pensavam dominar, e riam com satisfação e cumplicidade das piadas (por vezes) pouco privadas. 

Era um dia ensolarado, daqueles dias de Primavera a chamar o Verão em que pela hora de almoço o Sol aperta e a sombra das árvores se torna convidativa.

E assim, no meio daqueles degraus permaneciam sentados, alheios ao vai e vem de sapatos em passos rápidos ou lentos que por vezes os rasavam, um grupo de eternos adolescentes. Entre eles, uma jovem que, no seu discreto orgulho, envergava uma camisola de malha laranja e sentia dentro de si um fogo de "querer Saber Ser e Fazer" a crescer.

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Texto inspirado no Desafio Caixa Lapis de Cor  

23
Fev21

São as nossas Chaves...

gaivotazul

Olhas para mim e perguntas porque sorrio. Nesse instante desço à terra e apercebo-me que não cheguei a sair do sofá e permaneci na mesma posição por tempo indefenido. E eu, tão absorta, que julgara estar noutra época, noutro cenário, tal a intensidade com que presenciei os acontecimentos descritos.

Respondi-te de modo evasivo e voltei a embrenhar-me nas palavras. Daí a pouco o riso que aflorava os lábios era substituído pela lágrima que rolava pelo rosto. Dessa vez, olhaste-me mas nada disseste.

 

Li demoradamente as últimas páginas, como demoradamente lera as primeiras ainda que por razões completamente antagónicas. As primeiras, porque não me estava a ser fácil situar-me no tempo e no espaço e identificar-me com as personagens. Algo frequente quando se termina uma obra e se inicia outra com características diferentes. Por vezes, assumo o papel do narrador, outras sou uma personagem específica, e outras tantas, salto de personagem em personagem ocupando corpos, almas e mentes que tomo apenas por empréstimo. As últimas páginas, lias demoradamente por querer manter em mim a força das palavras traduzidas em emoções.

 

Não sou de partilhar excertos de textos pois cada um atribui diferentes significados a um mesmo símbolo. Desta vez, porém, não resisto a fazê-lo...

 

"(...) É essencial que nos expressemos. As paredes e as portas não impedem apenas o mal de entrar, mas também o bem. A nossa função é possuir as chaves da nossa liberdade, e ser capaz de usar essas portas. Passei muitos anos atrás de uma porta fechada sem saber onde encontrar a chave da minha vida, mas, graças à minha música, ando agora a encontrar uma via de saída. (...) «O que é a vida sem a beleza da arte, da música ou da poesia para nos ajudar a interpretá-la, nos incentivar a saber como sentir, como amar e como viver?» Na música, eu vejo as trevas, a luz, a confusão, a beleza e as complexidades da vida que não podem ser resumidas como numa equação. A música, para mim, ajuda a derrubar os muros, a abrir essas portas fechadas. E espero que esta noite também tenha sido assim para vós." (Suzanne Kelman in "Uma Janela com Vista sobre os Telhados")

E quem diz a música, diz a escrita, o canto, a dança, a tela em branco e todas as outras formas de arte com que nos expressamos e através das quais projetamos a nossa voz e a nossa identidade.

São as nossas Chaves...

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18
Fev21

Era uma vez uma princesa...

gaivotazul

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Era uma vez uma princesa tão gorda que só ocupava espaço.

Começara quando era ainda criança. A sua curiosidade natural e alegria contagiante que oferecia num rasgado sorriso a todos com quem se cruzava, faziam de cada dia uma aventura que agarrava com unhas e dentes.

Novos e velhos apreciavam a sua companhia. Com as crianças da aldeia, trepava às árvores e brincava às escondidas até ao último raio de sol se pôr atrás do arvoredo. Com os mais idosos, conversava horas a fio desfiando histórias de lugares distantes e em troca absorvia toda a herança cultural do seu povo.

Foi crescendo, em tamanho e em igual medida, em generosidade e empatia.

De dia para dia a princesa florescia e a sua presença de espírito era cada vez mais notória.

Os mais distraídos poderiam pensar que estava gorda. Estariam pois redondamente enganados.

A princesa ocupava espaço, é verdade. Mas só ocupava espaço porque por todos era amada e a todos se dava em Amor.

Quando esta um dia, já velhinha, partiu, ficou em seu lugar um imenso vazio. Um espaço rapidamente preenchido com as gordas memórias que entre todos deixara.

 

 

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Texto escrito ao abrigo do desafio aqui lançado pela Ana (uma abelhinha muito atarefada)

https://anadedeus.blogs.sapo.pt/

 

 

 

 

 

17
Fev21

Que a música nos conduza de volta a casa

gaivotazul

A banda ensaiava os primeiros acordes de uma noite que prometia.

Da conjugação de instrumentos tocados por mãos experientes, nascia um som quente, terno, envolvente.

A noite era ainda uma criança, e o samba canção tomava conta do salão.

Por ele corriam os catraios, num jogo do toca e foge. Entre eles rodopiavam os casais enamorados.

As mornas também tinham o seu lugar. Mão na mão, rosto com rosto, corações em uníssono.

 

Mesmo de olhos fechados, os passos sabem o caminho a seguir, guiados pela voz que ao microfone canta as palavras que todos eles sentem mas nem sempre ousam dizer.

Adivinhando-lhes o pensamento, a banda aumenta o ritmo da batida.

Cresce a noite e com ela a liberdade de movimentos.

É o sonho que se materializa, num salão já composto, iluminado com cores mil que dançam pelo chão.

São vozes desafinadas em perfeita harmonia. Já não cantam, gritam. Gritam as palavras que na alma trancavam e que agora se elevam no ar de asas bem abertas.

São corpos suados e cansados que não se rendem. Que recuam temporariamente para nova investida. Que resistem e não desistem.

Não há lugar ao cansaço quando tudo o que sentem é a vida que nas veias lhes corre.

São novos e velhos, gente para quem a alma não tem idade.

Vai a noite no alto, a madrugada ao virar da esquina. Exaustos, felizes, pedem bis.

Já não são eles quem os pés comandam. E que bom que é poder assim entregar as rédeas, ser conduzido e deixar-se conduzir.

 

Que a música nos conduza de volta a casa...

 

 

 

 

10
Fev21

Sei!

gaivotazul

Sei que a noite há muito caiu pintando de negro a noite sem estrelas.

Sei que o vento que sopra não me traz o som da tua voz sumida.

Sei que o cansaço que em mim habita encontrou por fim a sua morada.

Sei que a mente vagueia por passados recentes e futuros ausentes.

Sei que as cordas da guitarra que já não tocas são promessas por cumprir.

Sei que o piano no canto evoca os fantasmas sempre presentes.

Sei que já não faço sentido e que essa pretensão abandonei.

Sei que a meio da noite o sono irá desertar.

Sei que por vezes gostaria de o poder acompanhar.

Sei que há verdades incontestáveis, pelo menos para mim.

Sei que as saudades apertam e que a promessa de um abraço se faz esperar.

Sei que a ausência também dói e que não é preciso ver para crer.

Sei que a música que agora toca ecoa pelo tempo .

Sei que essa mesma música atravessa o espaço e tece fios de prata.

Sei que esses fios nos unem de modo indelével.

Sei que por muito pouco que saiba, por vezes uma única certeza basta.

Sei que haverá um amanhã e sei que haverá um nós.

Sei que quem cala também consente.

Sei que o que foi não volta a ser e quem fui jamais serei.

Sei que uma esperança se acende na noite.

Sei que "milagres" acontecem.

Sei que em Ti acredito, uma e outra vez.

Sei que irei tropeçar e que nem sempre será fácil recomeçar.

Sei que não tenho de partir e que tenho onde chegar.

Sei...

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03
Fev21

As vossas negras mãos!

gaivotazul

Da rua chega-me um som distinto. De aço que atravessa a carne e na madeira se enterra.

Num gesto mecânico, levantas o braço uma e outra vez, desferindo golpes precisos.

Numa extremidade da grossa tábua de madeira, perfilam-se as postas que outras mãos irão salgar.

Nas tuas, decoradas com escamas mil, veias azuis sobressaiem. Não são rios nem mares mas nelas correm vidas.

Estão agora negras! Negras das brasas que ateias com o negro carvão. 

A noite já cai e no teu posto permaneces, vigilante!

 

À luz da candeia já dançam nas paredes as negras sombras. 

Não estás só. Ao teu lado outras mãos que cuidam estão na labuta.

Gestos repetidos até à exaustão por uma esgrimista exímia.

E nas suas mãos calejadas abrem-se estradas pelas lâminas traçadas.

São negras mãos. Negras da terra com que se cobriu e do negro pó que a tingiu.

A alvorada já não tarda e ela sempre na mesma jornada.

 

São mãos que cuidam, mãos que trabalham, mãos que amam. As vossas negras mãos! 

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Texto escrito no âmbito do Desafio Caixa de lápis de cor

02
Fev21

Vestira-se de Mar...

gaivotazul

Estava feliz, estava verdadeiramente feliz!

Tinha sonhos e esperança, certezas de uma criança.

Caminhava em passos leves e seguros, trilhando caminhos sem muros.

Deles se desprendiam pequenas vagas travessas. E todos eles teciam rendilhados de brancas promessas.

Eram espuma solta a dançar,

maresia em noite de luar.


Nessa tarde vestira-se de mar. 
E ao anoitecer, quando a última vela soprou, em mar se transformou.

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30
Jan21

...

gaivotazul

Não o faço com intencionalidade. Não tenho pressa que chegue o fim mas dou comigo em busca dele. Não estou numa corrida contra o tempo, mas inadvertidamente corro com ele por companhia e com a intensidade que ele dita.

Quando as palavras são debitadas em catadupa e se atropelam na pressa de se fazerem ouvir, num abrir e fechar de olhos cinco páginas voaram. 
Quando estas se alongam, se enrolam e desenrolam, pousando aqui e ali, quando batem as asas em voo solto, é lento o bater do relógio.


Não o vejo a passar, não lhe tomo o pulso. Vou-me embrenhando cada vez mais, desbravando caminho. Fica para trás o ponto de partida, só a luz ao fundo do túnel me importa.


Dizes que os devoro. Talvez... mas não com intencionalidade.

São mundos que se apresentam diante de mim. Que me transportam no tempo e no espaço. Que eu adoro e devoro. Com quem viro a madrugada, página após página.

 

 

 

 

04
Dez20

Por entre as linhas de um caderno inexistente...

gaivotazul

Por entre os dedos brinca um lápis imaginário que anseia deslizar por entre linhas de um caderno inexistente. O calo no dedo que outrora o segurava com firmeza, conduzindo os seus passos como de de um tango se tratasse, desespera perante o tempo que tarda e o retém, ao lápis, e que nessa demora adia o inevitável encontro.

Na ausência sentida de um corpo duro e frio que se deixava guiar de olhos fechados, alheio aos atropelos e erros ortográficos ou gramaticais cometidos em nome de um amor maior, uma ponta de outro dedo acaricia-o. Uma vâ tentativa de apaziguar o vazio, a falta, o vício e a abstinência.

Há espaços, tempos, lugares que pura e simplesmente são inocupáveis, irrepetíveis, insubstituíveis e tantos outros "in" insuficientes para o caracterizar.

Por entre dedos brinca um lápis imaginário. De olhos fechados quase o consigo sentir. De coração aberto sei que ele lá está. A deslizar como sempre por entre as linhas de um caderno inexistente.

 

01
Nov20

Ela encerra um pouco de Ti...

Desafios I Passa-palavra#Almofada

gaivotazul

Bem sei que está gasta, que já teve melhores dias, mas continua a cumprir o seu propósito, por isso, não me digam para a deitar fora.

Em alguns locais está manchada, algumas linhas começaram a ceder, as suas cores são agora mais esbatidas, mas continua a desempenhar a sua missão, por isso, não me digam para a deitar fora.

Já não tem o mesmo vigor, pode até estar rasgada aqui e ali, mas continua a preencher o seu fim, por isso, não me digam para a deitar fora.

Sempre que a vejo, é de ti que me recordo. Posso não recordar o teu rosto, e de ti pouco me lembrar, mas enquanto a tiver comigo, e se a memória não me atraiçoar, saberei que resultou de um gesto de amor, que foi feita por ti, para mim. Que a ela te dedicaste, e que a mim a confiaste.

Nela bordaste o meu nome. Fizeste-me sentir especial, amada... e esse sentimento permanece em cada ponto costurado que ainda resiste. Por (tudo) isso, não me digam para a deitar fora.

Ela encerra um pouco de Ti...

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Ainda que com algum atraso, não podia deixar de tentar responder ao desafio passa-palavra proposto pela Mula e pela Mel.

 

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